Casarão da Família Santos Dumont

A restauração de um patrimônio arquitetônico

 

Alameda Cleveland, 601;  Alameda Nothmann, 184

Número de pavimentos: dois mais porão na casa principal

Ano de conclusão: início dos anos 1890

Uso atual: em reformas; futura sede de fundação e museu

Proteção: Condephaat e Conpresp

 


Há poucos anos, quem passasse em frente ao casarão da família Santos Dumont na al. Cleveland, no bairro dos Campos Elíseos, iria considerá-lo uma perda irrecuperável. Aquela que fora um das mansões mais esplêndidas da cidade se encontrava arruinada e abandonada, tendo sido invadida por centenas de sem-teto que viviam em condições de vida inacreditáveis - em meio a todo tipo de imundície,  ratos e baratas, conviviam crianças e adultos deserdados pela sorte, num ambiente de promiscuidade e violência. Os delicados trabalhos de serralheria em metal haviam desaparecido, grande parte do revestimento das paredes havia se desprendido, e o restante estava em estado lamentável - isso só para falar do aspecto exterior do palacete. No século XX, o casarão havia testemunhado desde o luxo e requinte da mais opulenta elite, até a miséria desesperadora dos mais marginalizados. E agora, todos aqueles que testemunharam a agonia do imóvel, estão tendo a grata surpresa de vê-lo renascer das cinzas, sendo minuciosamente restaurado e às vésperas de se converter em um Museu e sede de ONG ligada ao patrimônio cultural - a Fundação Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo.

O casarão foi por muitos anos residência de Henrique Santos Dumont, filho de Henrique Dumont, o Rei do Café - e irmão de Alberto, o inventor do avião. É um dos poucos imóveis do século XIX ainda existentes em São Paulo, e se localiza nos Campos Elíseos - o primeiro bairro destinado a moradias de luxo em São Paulo, arruado em 1879. Antes, a elite paulistana morava em pleno Centro Velho (o Triângulo), nos vetustos sobrados em estilo colonial. Nos Campos Elíseos, se iniciou o modelo de habitação de luxo em estilo eclético, com amplos jardins. Nos exemplares mais antigos, como a casa de Santos Dumont, a implantação se dá no alinhamento da rua, enquanto que posteriormente, a residência passou a ser implantada no centro do lote, afastada da rua.

Como moradia de um dos homens mais ricos do Brasil, o palacete foi decorado com o que havia de melhor na época, no Brasil e no mundo. Madeiras nobres, mármores italianos, pastilhas de mosaico veneziano revestindo o piso do jardim, uma profusão de magníficas pinturas murais - com filetes de ouro - e de papéis de parede importados recobrindo as paredes de praticamente todos os cômodos.

Após a morte de Henrique Santos Dumont, o imóvel foi vendido e adaptado para abrigar o Colégio Stafford, um internato - destino semelhante ao de vários outros palacetes dos Campos Elíseos.  Ao longo dos anos, foram construídos vários anexos do colégio no enorme terreno do imóvel, os principais sendo um prédio para as salas de aula e diretoria, em estilo eclético, projeto do escritório de arquitetura Presgrave & Mello,  e uma pequena residência para a proprietária do Colégio. O Casarão em si foi transformado em dormitório das alunas.

Depois de abrigar por décadas o Colégio Stafford, o imóvel passou a ser ocupado pela Sociedade Pestalozzi, tendo sido desapropriado pelo Governo do Estado e emprestado para a Sociedade. Os problemas começaram quando a Sociedade Pestalozzi se mudou para a Vila Guilherme, e o casarão ficou abandonado. Em 1983, foi invadido pela primeira vez pelos sem-teto, que aí permaneceram até 1990, quando o Governo do Estado conseguiu a reintegração de posse. Contudo, em 1995 os sem-teto invadiram novamente o imóvel, ainda abandonado pelo governo e já completamente dilapidado. A via-crúcis do casarão só terminou em 2001, com a reintegração definitiva, tendo sido retiradas na ocasião nada menos que 400 (!) pessoas. O imóvel foi então cedido à FPHESP, que deu início às obras de restauração para transformá-lo em sua nova sede, não sem antes enfrentar uma enorme série de percalços, entre os quais novas ameaças de invasões. Para iniciar os trabalhos, foi necessário primeiramente remover toneladas de lixo e escombros, e resolver o problema da verdadeira praga bíblica de ratos que infestava o imóvel.

Ao mesmo tempo em que se davam os estudos para a restauração do imóvel, a equipe de historiadores da FPHESP procedia a um minucioso levantamento da história da ocupação do imóvel, que reproduzimos a seguir:

07.07.1890 – Antonio de Lacerda Franco adquire de Domingos dos Reis e Maria das Dores Vasconcellos dos Reis um terreno na alameda do Triumpho, 67, esquina com alameda Nothmann, na freguesia de Santa Ephigênia, pelo valor de 18:000$000.

19.10.1894 – Antonio de Lacerda Franco transmitiu por venda feita a Henrique Santos Dumont, pelo valor de 200:000$000, o prédio edificado para dentro do alinhamento, na alameda do Triumpho esquina com alameda Nothmann.

30.09.1920 – é feita carta de sentença do formal de partilha de Henrique Santos Dumont.

17.09.1923 – Amália Ferreira Dumont, viúva, adquire em partilha do espólio de Henrique Santos Dumont, pelo valor de 180:000$000, um prédio situado à alameda Cleveland (antiga alameda do Triumpho), número 65, esquina com alameda Nothmann.

04.02.1926 – Amália Ferreira Dumont vende para Blandina Ratto uma casa com dois pavimentos, situada na alameda Cleveland, 65, esquina com alameda Nothmann, freguesia de Santa Efigênia, localizada no centro de seu respectivo terreno, tendo nos fundos construções anexas para garagem e habitação com jardim, pelo preço de 350:000$000.

1927 – são construídos mais três imóveis no terreno para abrigar o Colégio Stafford.

Anos 1940 – construção de mais dois imóveis no terreno, para abrigar novas instalações para o colégio (auditório, enfermaria e laboratórios).

22.03.1948 – falece Blandina Ratto.

14.06.1951 – Lucinda Ratto adquire do espólio de Blandina Ratto, pelo valor de CR$ 2.332.000,00, a propriedade situada na alameda Cleveland, 601, antigo número 65.

30.12.1951 – o Colégio Stafford feminino, situado na alameda Cleveland, é desativado. As alunas são transferidas para outros colégios.

15.09.1952 – o Prof. Dr. José Maria de Freitas funda a Sociedade Pestalozzi de São Paulo, entidade filantrópica que passa a atender portadores de necessidades especiais mentais no casarão.

03.05.1961 – o imóvel foi desapropriado pela Fazenda Pública Estadual, pelo valor de CR$ 6.000.000,00.

1977-1983 – a Sociedade Pestalozzi de São Paulo é paulatinamente transferida para suas novas instalações na Vila Guilherme, São Paulo – SP.

1983-1990 – o casarão é ocupado por grupos do movimento “sem-teto”.

1990 – primeira reintegração de posse do imóvel.

15.01.1993 – o edifício ainda pertence à Secretaria da Criança, Família e Bem Estar Social.

1995 – o casarão passa à administração da Secretaria de Estado da Cultura.

1995-1997 – a casa foi ocupada novamente pelo movimento dos “sem-teto”.

1997 – segunda tentativa de reintegração de posse, logo seguida por nova ocupação.

30.03.2001 – o casarão é desocupado, mediante reintegração de posse dada à Secretaria de Estado da Cultura.

06.06.2001 – a Secretaria de Estado da Cultura transfere o imóvel por cessão de uso provisório para a Fundação Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo.

Fonte: FPHESP

No site da FPHESP, também se encontra uma completa descrição do processo de restauração do imóvel, mais uma interessante série de fotografias que mostram passo a passo a evolução do restauro.

As obras de restauro chegaram a ser interrompidas por falta de verbas, mas finalmente se conseguiu uma captação de recursos, através da Lei Rouanet. Vale a pena aqui citar as empresas que contribuíram financeiramente para a recuperação deste patrimônio arquitetônico: AES/Eletropaulo, Sabesp, Voith/Siemens e Queiroz Galvão. A atitude dessas empresas é digna de todos os louvores, e demonstra seu compromisso com a cidadania. O volume total de recursos necessário para a restauração foi orçado entre 5 a 6 milhões de reais, dos quais conseguiu-se obter R$ 2 milhões, suficientes para concluir a primeira fase de obras, permitindo a transferência da sede da FPHESP e do museu para o local. Só para a restauração das espetaculares pinturas murais, estima-se que seriam necessários cerca de 500 mil reais.

Está prevista para breve o fim da primeira fase de obras e a inauguração da nova sede da FPHESP. Com isso, a cidade ganhará de volta um monumento histórico e artístico que supunha praticamente perdido, e que certamente terá um impacto extremamente positivo na recuperação de um bairro fundamental para a história da urbanização e da arquitetura em São Paulo, e que nas últimas décadas sofreu um violento processo de degradação.

Agradecimentos: Mariana de Souza Rolim (arquiteta - FPHESP - responsável pela obra)


Fotos - créditos: Jorge Eduardo Rubies

Clique nas imagens para ampliar:

Um dos cômodos da casa

Detalhe do papel de parede

de um dos cômodos

Detalhe da pintura mural

Detalhe da pintura mural,

com filetes de ouro

Detalhe da pintura mural

Detalhe da pintura mural

 

Detalhe da pintura mural

Detalhe da pintura mural

 

 

Detalhe do forro,

com uma clarabóia

 
 

Detalhe do forro

Ornato em gesso

Oficina de ornatos em gesso

 

Grade e vista para o prédio

do Colégio Stafford

 

Piso de ladrilhos hidráulicos,

com motivos em arabesco

Detalhe de piso em ladrilhos hidráulicos

 
 

Portão de entrada

 

Jorge Eduardo Rubies

 

 

Voltar à página inicial