Uma rua chamada

TRIUMPHO

Conteúdo:

I - 1870

II- La Boca

III - Capital do Cinema Latino-americano

IV - Cracolândia

 

I - 1870

Por volta das 11 horas da manhã do dia 25 de abril de 1870, desembarcavam na Estação da Luz, vindos de Santos, os sobreviventes do Corpo de Voluntários da Pátria paulistas que haviam tomado parte na Guerra do Paraguai. Foi uma festa como nunca se viu na então pacata cidadezinha de 30.000 habitantes; as emoções de todos estavam à flor da pele, pois a maioria das famílias tinha um parente que fôra lutar naquela guerra particularmente cruel, e depois de tantos anos aquele era o momento de se reencontrar com seus filhos, irmãos, sobrinhos e primos. Segundo nos conta Alfredo Egydio Martins “Da Estação, dirigiu-se o Corpo de Voluntários, em coluna aberta, para a frente do Seminário Episcopal, onde os religiosos capuchinhos haviam erguido um altar para a realização da missa (...), finda a qual entrou o Corpo de Voluntários na cidade pela Rua Alegre, hoje Brigadeiro Tobias, seguido de um grande acompanhamento de povo, que levantava entusiásticas vivas e aclamações. Na mesma Rua Alegre, defronte à casa onde residia, naquela época, o Dr. Camilo Gavião Peixoto, erguia-se um lindo arco em forma de castelo e por toda a parte da Cidade arcos de murta e palmeiras, damascos, flores, discursos e saudações, tal era o júbilo de que estava possuída a população da Capital pelo regresso dos voluntários paulistas”(1).

Após esse desfile triunfal, os voluntários seguiram para o Jardim da Luz, onde foram recebidos por meninas que lhes lançavam pétalas de flores, e homenageados com um banquete para 500 talheres. “Durante as três noites, após a chegada dos voluntários, a Cidade toda se iluminou, apresentando deslumbrante efeito a que foi feita nas ruas da Imperatriz, hoje XV de Novembro, São Bento e Direita, cujas casas foram todas adornadas nas suas frentes, especialmente as de sobrado, com diversas bandeiras, colchas de damasco e ricas toalhas de crivo, vasos com flores naturais em profusão, variedades de folhagens e arbustos, fitas de várias cores e iluminadas com as tradicionais lanternas, globos e candelabros com velas de composição, sendo também os coretos e arcos que se erguiam nas ruas enfeitadas com murtas, flores naturais, fitas de várias cores e pequenas bandeiras brasileiras e de outras nações, e a iluminação deles era feita por meio de copinhos brancos e de cores”(2).

O ponto alto das celebrações foi a missa rezada em 27 de abril na singela igreja colonial que fazia as vezes de Catedral, ocasião em que foi depositada no altar-mor a bandeira do Corpo de Voluntários, “a veneranda Bandeira coroada de louros, a qual apesar de descorada pela ação do tempo, rota pelos projéteis inimigos e nodoada de sangue se reconheceu ser a mesma e a própria que, bordada por algumas Senhoras Paulistas desta Capital, fôra por elas oferecida ao sétimo Batalhão de Voluntários, e no dia nove de julho de 1865, depois de sagrada pelo finado Excelentíssimo Bispo Dom Sebastião Pinto do Rego, lhe foi confiada pelo então Presidente (da Província) o Excelentíssimo Conselheiro Doutor João Crispiniano Soares”(3)

1870 foi mesmo um ano muito especial para a cidade de São Paulo. O fim da Guerra do Paraguai anunciava uma era de extraordinário progresso, que transformaria a modorrenta cidade de feições coloniais, cujo crescimento nos três primeiros séculos foi a passo de tartaruga, numa das maiores cidades do mundo. A Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, inaugurada apenas três anos antes, foi uma das principais desencadeadoras desse ciclo de desenvolvimento que duraria mais de 100 anos – de 1870 a 1981 - praticamente ininterruptos. Próximo ao tosco predinho que então funcionava como Estação da Luz, duas novas ruas surgiram na crescente freguesia de Santa Ifigênia, tendo recebido nomes comemorativos do fim recente da terrível guerra – Rua Vitória e Rua do Triunfo, esta última com apenas três quarteirões de extensão.

A expansão urbana, com o surgimento de novas ruas, era um dos sinais de que a cidade começava a despertar de seu torpor letárgico que durava quase três séculos, despertar esse que teve como um de seus principais fatores justamente a chegada da ferrovia a São Paulo. E a ferrovia que levaria para o porto de Santos e de lá para o mundo a produção cafeeira, traria as primeiras levas de imigrantes, que nas décadas seguintes se transformaria em enxurrada. Santa Ifigênia inchou. Ao lado de pensões, hotéis, armazéns, pipocavam cortiços, modalidade de moradia que surgiu nessa época na cidade, a fim de abrigar a multidão de recém-chegados – entre 1890 e 1900 a população da cidade saltou de 65.000 para 240.000 habitantes, sendo que nada menos que 45% destes eram italianos, provenientes principalmente das províncias meridionais da península.

A cidade estava naturalmente despreparada para comportar tamanho influxo de imigrantes, boa parte dos quais instalados em precários cortiços recém-criados em Santa Ifigênia. A superpopulação e a falta de higiene criaram condições propícias para uma epidemia de febre amarela no bairro em 1893 - uma das muitas que assolavam a cidade na época. Porém, aqueles eram tempos de uma revolução no campo da epidemiologia, da higiene e da saúde pública, e o governo do estado nomeou uma comissão para analisar o problema, composta por Luiz Gama, Cândido Espinheira, Teodoro Sampaio, Cunha Vasconcelos e Marcondes Machado, encarregada de elaborar um relatório que fornece um minucioso retrato da vida no bairro à época. Na região estudada, havia 65 cortiços (alguns de propriedade de cidadãos ilustres, como Brasílio Machado), habitados por 380 famílias e que totalizavam 2.136 indivíduos. A nacionalidade dos moradores era assim distribuída:
 

Portugueses

99

famílias

Italianos

85

famílias

Espanhóis

48

famílias

Alemães

41

famílias

Brasileiros

33

famílias

Poloneses

09

famílias

Suecos

04

famílias

Austríacos

02

famílias

Belgas

01

família

Dinamarqueses

01

família

Ingleses

01

família

Franceses

01

família

Não identificados

55

famílias


Assim eram descritas as condições de vida dessas famílias: “O cortiço ocupa comumente uma área no interior do quarteirão, quase sempre no quintal de um prédio onde há estabelecida uma venda ou tasca qualquer (...) No cômodo do fundo, onde não há assoalho nem forro, nem mesmo ladrilhos, assenta um fogão ordinário e rudimentar com chaminé que pouco funciona em vista de sua má construção ou do pouco cuidado que se lhe tem. Daí vem que o interior dessas pequenas casas tem as paredes enegrecidas e poucas asseadas, do teto já se lhes não conhece a pintura sob a camada de sujeira das moscas. As paredes com quadros de mau gosto têm o reboco referido por uma infinidade de pregos e de trincas de que pendem vários objetos de uso doméstico e roupa de serviço. Os móveis desagradavelmente dispostos têm sobre si peças de roupa para lavar. O cômodo de dormir, aposento que ocupa o centro da construção, não tem luz nem ventilação, nem capacidade para a gente que o ocupa à noite. De ordinário, no ato de dormir, é esta peça hermeticamente fechada. A família toda ali se agasalha em número de 4 a 6 pessoas e os móveis acumulados tomam por um terço a capacidade do aposento. O soalho jamais se lava, com exceção daquelas habitações ocupadas por famílias alemães, ou de gente do norte da Europa, onde o asseio é quase sempre irrepreensível. A crosta de lama que a cobre não deixa de reconhecer a madeira, e o todo se mostra sob aspecto nojento e insalubre. A umidade do solo sobe pelas paredes poindo o papel ordinário que as reveste e danificando o soalho que não é ventilado e se assenta diretamente sobre o terreno.

(...)

"Na área livre, que pouco mais é do que um simples corredor, há assentado um ralo para esgoto, uma torneira para água, um tanque para lavar e uma latrina, de ordinário muito mal instalada. Só ultimamente, por insistência do delegado de higiene, é que essas áreas têm sido calçadas ou cimentadas; ainda assim há cerca de 50% delas que estão carecendo de tal benefício. Em algumas, as sarjetas para a drenagem superficial nem sempre existem, ficando a água de lavagem ou da chuva empoçada de modo mais prejudicial. O número de torneiras para água nem sempre está em proporção com a população do cortiço e com os gastos que essa gente faz diariamente e por isso ainda se vê em bom número de casos a água de poço utilizada para vários serviços domésticos e até beber.

As latrinas não guardam proporções com o número de habitantes. Jamais são essas latrinas servidas d’água, e as bacias de barro vidrado cobertas por um imundo caixão de pinho, apoiado em solo encharcado de urina fétida, completam o tipo dessa dependência bem característica do cortiço. O asseio é uma necessidade das mais comezinhas nas habitações de operários entre nós, mas o cortiço, abandonado à incúria de seus habitantes e à sórdida exploração do proprietário sem escrúpulos, excede tudo quanto pode se imaginar nesse gênero, não obstante ser hoje muitíssimo melhor este estado de coisas pela ação dos delegados de higiene”(4).

Segundo o relatório, havia dois cortiços na Rua do Triunfo; na mesma época, também se localizava na rua o palacete do Barão de Arari, o que mostra que a ocupação da área era bastante heterogênea.



Com o passar dos anos, a cidade continuou a crescer e se desenvolver, os imigrantes que habitavam os cortiços da cidade foram sendo assimilados, melhoraram de vida e se mudaram para habitações mais dignas e confortáveis. As atividades na Rua do Triunfo e o bairro de Santa Ifigênia continuaram a refletir a proximidade com as estações ferroviárias, sendo ocupadas por hotéis, lojas, armazéns, pensões, algumas casas, escritórios de empresas ligadas ao transporte ferroviário. Belos prédios nos estilos neoclássico e neobarroco foram sendo erguidos. Alguns deles resistem até os dias de hoje, fazendo da Rua do Triunfo e do bairro uma das maiores concentrações de jóias arquitetônicas da cidade.

II - La Boca
 

"- Quanto você tem?

- Trinta giraus.

- Então podemos amar..."

Ramão Gomes Portão, Estórias da Boca do Lixo (5)

 

A história de Santa Ifigênia transcorreu sem nada de mais notável até 1953, quando o então governador Lucas Nogueira Garcez ordenou o fim da chamada “zona de confinamento”, situada nas ruas Itaboca e Aimorés, no Bom Retiro, e que desde os anos 30 abrigara com exclusividade a prostituição paulistana. As moças despejadas rumaram em massa para o bairro imediatamente vizinho ao sul, na região situada entre as Avenidas São João, Duque de Caxias, Rua Mauá, Rua Couto de Magalhães, Avenida Cásper Líbero e Avenida Ipiranga. E o bairro de Santa Ifigênia sofre a primeira metamorfose de sua história. Hiroíto Joanides – do qual falaremos em seguida – assim descreve a transformação radical e praticamente instantânea:

“Mais de mil prostitutas, estimo eu, restavam assim desabrigadas e, a bem dizer, desempregadas. Sem outros meios para ganhar a vida senão aquele que a mãe natureza lhes havia dado e a experiência aprimorado, não chego a crer que lhes tenha passado pela cabeça a mais leve idéia de procurar emprego. Menos ainda, marido. A confirmar essa minha dedução, boa parte daquelas mulheres partiam incontinenti rumo a outras praças, para exercer suas funções – notadamente cidades do interior, nas quais as casas-de-tolerância seguiam toleradas e regulamentadas pelas leis municipais.

Porém, o grosso, quantitativamente falando, das despejadas, menos propensas à quietude interiorana, e de todo incapacitadas para alugar, mobiliar, montar enfim uma casa onde viver, solucionaram os seus problemas de abrigo naqueles hotelecos e casas-de-cômodo, que sempre proliferaram no bairro dos Campos Elíseos, nas cercanias das estações ferroviárias da Luz e Sorocabana, e que são presença obrigatória nas imediações de estações de toda cidade grande, que como tal se preze. (...) E em breve, as ruas Santa Ifigênia, dos Andradas, dos Gusmões, Vitória e Protestantes apresentavam o mesmo movimento, as mesmas feições, a mesma comunhão de propósito que caracterizavam as noites da Itaboca e Aimorés.

(...)

"A transfiguração ambiental se fazia célere e radicalmente. O próprio comércio local, em certos casos, e não poucos, via-se literalmente afogado em meio a um mercado consumidor de todo estranho aos seus negócios, pelo que, para sobreviver, urgia que também se transformasse, se adaptasse às exigências e necessidades do novo tipo de consumidor com que se via à volta. Assim, casas de roupas para homens se fizeram lojas de artigos femininos, guarda-chuvas e chapéus dando lugar a bolsas e sombrinhas, enquanto em outros estabelecimentos comerciais, tapetes e cortinados cediam lugar a bibelôs,capachos e vasos para flores. Geladeiras, fogões e enceradeiras permaneciam encalhados nos estoques, ao passo que as vendas de fogareiros, garrafas térmicas e frigideiras se multiplicavam. Nas prateleiras das drogarias do bairro, Coco Chanel via-se desbancada por Cashmere Bouquet e L’Amant de Coty. E caixas de camisas-de-vênus.

"Famílias de bem se mudavam apressadamente do local, escandalizadas com o novo clima, tipicamente prostibular, em que se viam envoltas, e também ou então por não resistirem à tentação das propostas que recebiam, para que transferissem a locação dos imóveis que, imediatamente a seguir, taransformavam-se em pequenos hotéis ou mesmo em apartamentos de entra-e-sai.

Lojas de artigos sem procura fechavam hoje suas portas para reabrirem-nas amanhã... como bares. Nunca um número tão grande de bares foi aberto em tão curto espaço de tempo e distância.”(6)

Na sociedade repressora e hipócrita da época, o sexo antes do casamento era um dos maiores tabus – para as mulheres, porque para os homens, era uma afirmação da masculinidade vista até com bons olhos. O pior pesadelo de um pai de família, especialmente aqueles de mentalidade mais proviciana, era saber que sua filha fora “desonrada” pelo namorado ou por um sedutor qualquer, geralmente iludida por falsas promessas de casamento. Às vezes, a situação era resolvida através de uma conversa pouco amigável do pai da moça com o cafajeste deflorador, terminando em casório. Outras vezes, a pobre jovem era simplesmente renegada e expulsa de casa pelo pai, não lhe restando outra alternativa senão rumar para a Boca, onde seria condenada a uma existência solitária e miserável, ainda que desprovida de privações materiais. E no ambiente permissivo da Boca, essas meninas conviviam com gigolôs, malandros, policiais, além da numerosa clientela de cidadãos comuns que ia buscar na Zona aquilo que não conseguiria fora dela.

Mil histórias de amor e de sangue aconteciam ao mesmo tempo na Boca; umas serviram de inspiração para as músicas e contos de Paulo Vanzolini;  outras foram reunidas por Ramão Gomes Portão em seu livro "Estórias da Boca do Lixo". Um de seus mais destacados personagens, um rapaz trabalhador, franzino, de óculos de fundo de garrafa, cara de professor, afeito à literatura e à filosofia, que se tornaria uma lenda da cidade. Hiroíto Joanides provinha de uma família acima de qualquer suspeita – seu pai era industrial – que freqüentava esporadicamente a zona como a maioria dos rapazes de sua idade. Falsamente acusado do assassinato do próprio pai, buscou refúgio e consolo na Boca do Lixo, e lá, na base de muita inteligência, e também de muita violência, foi galgando posições no submundo até atingir o posto máximo de Rei da Boca. Acabou pegando sete anos de cadeia, e depois de solto, publicou suas memórias, o hoje clássico livro “Boca do Lixo” – quase uma obra-prima. Nele, retrata a vida e os crimes dos mais temidos marginais do pedaço – Nelsinho da 45, Quinzinho, Cangaceiro, Teleca e ele próprio – histórias que comparadas à violência de hoje seriam consideradas brincadeira de criança. Na época, causavam furor e enchiam páginas e mais páginas dos jornais.

Só que a carreira do bairro como o epicentro do pecado, da boêmia, da malandragem e da marginalidade romântica em São Paulo foi curta. Na região das ruas Major Sertório, General Jardim e Bento Freitas foram se instalando bordéis sofisticados para a clientela mais endinheirada, e nessa área também surgiram boates e casas noturnas de alto nível – a Boca do Luxo. E nos anos 60, com a revolução dos costumes , as prostitutas deixaram de exercer o quase monopólio da iniciação sexual dos rapazes, e do sexo antes ou fora do casamento. Não que a prostituição não seja mais exercida no bairro – até hoje existe, embora restrita às suas formas mais econômicas, menos higiênicas, e à clientela menos exigente e mais pressionada pelo instinto. Mas o fato é que, como disse Hiroíto: “A Boca do Lixo morrera? Não, pelo contrário, crescera assustadoramente. E seguiria crescendo. Hoje ela ocupa uma área de 1493 km².

Exatamente a superfície ocupada pela cidade que mais cresce no mundo”.(7)

E enquanto a Boca do bas fond fenecia, o bairro estava para sofrer mais uma metamorfose em sua história – a mais surpreendente de todas.

III - Capital do Cinema Latino-americano

No tempo em que o cinema era a diversão por excelência de todas as pessoas, de todas as classes sociais, de todas as idades e de todas as cidades, tanto as pequenas como as grandes, a distribuição dos filmes por nosso enorme país se dava por um sistema um tanto prosaico, se bem que barato e confiável: de trem e, à medida em que o transporte rodoviário ia substituindo o ferroviário, também de ônibus. Portanto, a vizinhança com as Estações da Luz e Sorocabana, e com a rodoviária antiga (inaugurada em 1962), fazia da Boca um local estratégico para as distribuidoras de filmes. Some-se a isso o fato de que a Cinelândia paulistana se localizava na região das Avenidas São João e Ipiranga, também nas vizinhanças de Santa Ifigênia.

Entre as primeiras empresas cinematográficas a se instalarem na região estão a Cia. Internacional Cinematográfica, que ficava na Rua da Conceição (atual Avenida Cásper Líbero), nº 5, a Cia. Cinematográfica Brasileira (Empresa Francisco Serrador), na Rua Brigadeiro Tobias, nº 52, a Jatahy, na Rua de Santa Ifigênia, nº 3, e a Empresa Cinematográfica Staffer, na Rua (atual Avenida) Duque de Caxias, 23.(8) Mais tarde, praticamente todas as grandes distribuidoras nacionais e estrangeiras afluíram para a Boca: a Polifilmes, a Columbia, a Paramount, a Warner, a Art Filmes, a Fama Filmes, a Pei-Mex, a França Filmes do Brasil, a Paris Filmes e, posteriormente, a Fox (9).

Na trilha das distribuidoras, as produtoras também passaram a se instalar na Rua do Triunfo. Segundo Ozualdo Candeias, a primeira foi a Campos Filmes, de Antonio Campos, que teve todo seu acervo destruído num incêndio na Cinemateca.(10) Outra das pioneiras foi a Cinedistri de Oswaldo Massaini desde 1956 na Boca, onde está até hoje (com sua sucessora, a Cinearte, de Aníbal Massaini, filho de Oswaldo). Coube à Cinedistri o maior prêmio já conquistado pelo cinema nacional, com O Pagador de Promessas, Palma de Ouro em Cannes em 1962. Ao longo dos anos 60, novas produtoras foram surgindo na Rua do Triunfo, boa parte delas criadas por ex-funcionários dos grandes estúdios brasileiros que haviam falido naquela época. Para lá também se dirigiram os jovens cineastas, muitos deles egressos de um efêmero porém marcante curso de cinema que havia na Faculdade São Luiz; cineclubistas e cinéfilos em geral, que antes costumavam se encontrar no Bar Costa do Sol, na Rua Sete de Abril, aventureiros e picaretas de todos os tipos, atores e “modelos” aspirantes a atrizes, sonhadores, loucos, visionários, estelionatários, otários, que tinham em comum apenas uma coisa: eram apaixonados pelo cinema e a ele se entregavam de corpo e alma. Iam se misturar aos freqüentadores tradicionais da Boca – garotas de programa e marginais. Todos convivendo em harmonia.

A atividade das produtoras também atraiu uma enorme gama de pequenas empresas prestadoras de serviços para o ramo cinematográfico. Segundo Clóvis de Athayde Jorge “o bairro desenvolveria o comércio (...) de toda a gama de materiais e de máquinas destinadas às projeções ou às instalações, estabelecendo concorrência com anúncios publicados nos jornais da cidade. (...) Com a fixação dessas firmas, o bairro de Santa Ifigênia ganharia condição privilegiada, constituindo-se em zona preferencial da atividade comercial que, pelos anos afora, se consolidaria nos corredores das ruas do Triunfo e dos Andradas. Aglutinaram-se num centro de exclusiva atividade, armazenando milhares de latas de filmes, 'press-it' e sortido material de propaganda, bem assim abrindo 'ateliers' para a feitura dos cartazes destinados às entradas das salas exibidoras”.(11)

Este prédio, inspirado no estilo neobarroco alemão, constitui um marco do bairro


Nos anos 70, época do milagre econômico, o cinema brasileiro explodiu, beneficiado pelo aumento do poder de renda da população e por uma legislação que protegia e incentivava o cinema nacional (através de mecanismos como a obrigatoriedade de exibição de filmes brasileiros e o adicional de renda). Tempos em que se chegava a fazer mais de 100 filmes no país, a maior parte deles produzidos na Boca do Lixo. Se algum dia houve uma indústria cinematográfica no Brasil, foi na Boca que ela existiu.

David Cardoso conta que “O ambiente era repleto de botecos, hotéis de má aparência, tipos estranhos. Tudo contribuiu para sua denominação. Falavam Boca do Lixo pelo enorme número de prostitutas (muitas delas viraram atrizes coadjuvantes), meliantes e, na época, inocentes fumantes de baseado. No meio disso tudo, dezenas de companhias produtoras, exibidoras e distribuidoras uma ao lado da outra. Era uma Cinecitá tupiniquim, uma Via Veneto, um pedaço de Los Angeles”. (12)

A vida na Boca girava em torno dos botecos, dos quais dois se destacavam: o Bar do Ferreira e, principalmente, o lendário Soberano. Além de ponto de encontro, de confraternização e de namoro do pessoal do cinema, o Soberano servia como escritório dos menos afortunados, e lá muitas vezes se fechavam negócios, se contratavam técnicos e atores.

Ainda David Cardoso: “Uma das imagens que mais vem à lembrança de todos que lá estiveram é o Bar Soberano. Era único. Almoço simples, mas farto. Os que o freqüentavam lembram com saudades do bifão à milanesa com batatas fritas e arroz, muitas vezes dividido com outro colega. No fim do dia bebia-se e ria-se na mesma proporção. E, de quebra, combinava-se uma nova produção, prometendo-se trabalho para todos num futuro que muitas vezes não ia além daquele encontro. No outro dia, poucos se lembravam do que se havia conversado”.(13)

“Um retrato da Boca é a história de um personagem que não sai da minha cabeça quando passo perto ou me lembro do local: o Seu Hélvio, que tinha uma agência de contratações para trabalho em cinema. Só fachada. Pegava a inscrição dos coitados com promessas de futuras participações em cinema. Devia ter umas trezentas pessoas inscritas. Ele não era nenhum galã: baixo e gordo. Mas era simpático e insinuante. Tomava umas 24 Caracus no Bar Soberano praticamente todo dia. Tinha seu estabelecimento por uns meses num determinado lugar e depois de amealhar um bom dinheiro já mudava de local. Quando era encontrado por um dos aspirantes a ator ou atriz que então cobrava sobre o dinheiro pago na inscrição, as fotos, os testes que ele promovia com câmeras (claro que não tinha nenhum negativo nelas), com uma cara-de-pau única dizia: “mudei para o bem de vocês. Tome o novo endereço, apareça para novos testes, agora para um filme que fulano vai começar brevemente”.(14)

David Cardoso ainda conta com detalhes picantes uma história de quando “Seu” Hélvio convidou três amigos para assistirem, escondidos no sótão de seu escritório, a um “teste” com uma loira, aspirante a atriz.

O gênero mais identificado com o cinema da Boca é a pornochanchada, que também marcou o congênere carioca da Rua do Triunfo, o Beco da Fome. Mas na Rua do Triunfo teve de tudo, com a provável exceção de filmes de ficção científica: filmes-cabeça, filmes de arte, filmes de aventura, de guerra, faroestes, filmes de terror... diversos filmes ruins, muitos filmes comerciais de bom nível e algumas obras-primas.

Grande parte dos cineastas da Boca vinham do interior ou da então periferia de São Paulo (hoje, bairros de classe média), gente sem muita educação formal, que faziam filmes sem maiores pretensões intelectuais, mas que buscavam agradar o público e com uma bilheteria que garantisse a realização de novos filmes. Os filmes eram exibidos nos grandes palácios cinematográficos da Cinelândia paulistana: o Marabá, o Paissandu, o Olido, o Marrocos, o Art-Palácio, o Ipiranga, que nos anos 50 exibiam as grandes produções hollywoodianas a uma platéia de elegantes cavalheiros de terno e gravata e damas de vestido e colar de pérolas. Os anos 70 não eram tão glamurosos, mas os cinemas continuavam lotados graças aos filmes populares produzidos na Rua do Triunfo. Os cineastas da Boca, vindos eles próprios de baixo, sabiam o que seu público queria, do que gostava, com que sonhava. Faziam filmes que eram a cara do povo brasileiro.

Os produtores da Rua do Triunfo até hoje se orgulham de terem feito um cinema exclusivamente com dinheiro da iniciativa privada, sem ajuda da Embrafilme, e que se auto-sustentava. Os métodos de financiamento dos filmes nem sempre eram dos mais ortodoxos. Cláudio Cunha, um dos melhores diretores do cinema da Boca, fala sem rodeios sobre o assunto: “‘Boi’ era como a gente chamava os caras que bancavam os filmes, geralmente em busca de conseguir mulher”.(15)

Quase todos os filmes eram de baixo custo e de curto prazo de rodagem. O alto preço dos negativos, que tinham de ser importados, pesava demais no orçamento, e as limitações financeiras eram compensadas por técnicos e diretores com o máximo de criatividade, tornando-os mestres do jeitinho brasileiro. O cinema da Boca está cheio de histórias anedóticas a respeito.

O falecido ator, diretor e produtor de filmes de aventura, de guerra e até faroestes Tony Vieira revelou que em seu filme Sob o domínio do sexo “a pior fita, a mais ordinária que eu já pude fazer”, e ainda assim uma das mais rentáveis de sua carreira, “Tem até uma cena em que apareço dizendo ‘corta’, e eu peguei aquilo e dublei ‘segue em frente’”.(16)

O produtor e montador Sylvio Renoldi conta que “estava fazendo um filme chamado Aulas noturnas. Fiquei em São Paulo. O diretor, a equipe e elenco foram para o lugar de filmagem – uma cidade do interior que ia colaborar com a produção. Aí resolveram exibir a iluminação para o prefeito. O cara ligou no 220, o que era 110 e queimou tudo. Aí, o diretor me ligou, dizendo: “Queimou todas as lâmpadas”. Eu falei: “Então faz Aulas diurnas, porque noturnas não vai ter mais...: Aí, fizemos Será que ela agüenta?(17)

Outro “causo” contado por Sylvio Renoldi: “Me lembro que o Renato Grecchi fez um filme com o Carlão Reichenbach chamado Corrida Em Busca do Amor e, porra, os caras não tinham motor, entendeu?, então tinha que ficar cinco neguinhos na esquina empurrando o carro porque não tinha motor, entendeu? E daí o carro passava, terminava a cena, puxavam o carro de novo... um filme de corrida com carro sem motor!”.(18)

Como a rentabilidade dos filmes era boa, muitos produtores investiam em equipamentos de melhor qualidade ou às aproveitavam a renda de seus filmes para fazer outros mais pessoais e com menor preocupação comercial. Anos e anos de prática em condições nem sempre ideais formaram um quadro de técnicos de grande competência e experiência, responsáveis por filmes de boa qualidade formal a um custo que para Hollywood seria inimaginável.

E, no entanto, o Cinema da Boca, que atingira o apogeu na virada dos anos 70 para os anos 80, em meados da década de 80 já estava agonizando, num declínio fulminante que pegou toda a irmandade da Rua do Triunfo de surpresa. Inúmeros fatores concorreram para o rápido fim do Cinema da Boca, numa incrível combinação simultânea de adversidades: o início da crise econômica brasileira, a decadência do Centro, a chegada do videocassete ao país, a proliferação dos cinemas de shopping, o fim da Censura e a conseqüente liberação dos filmes de sexo explícito...

À medida em que a censura ia caindo e o erotismo nos filmes ia ficando mais e mais explícito, a pornochanchada ia ficando mais e mais picante. No início da década de 70, o máximo de ousadia permitida era mostrar um seio – apenas um – de cada vez. Em 1981, após uma longa batalha judicial, o filme japonês “O Império dos Sentidos” foi liberado para exibição no país. Considerado um filme de arte, o filme no entanto continha cenas de sexo inéditas para o mercado nacional, e o que se seguiu foi uma enxurrada de filmes pornográficos estrangeiros. Os cinemas do Centro se viram obrigados a exibir filmes de sexo explícito para sobreviver – e os diretores da Boca dispostos a permanecer no ramo não tiveram outra opção a não ser acompanhar a nova tendência do mercado. O ambiente na Boca daqueles tempos era deprimente, pois o objetivo de técnicos, diretores e atores sempre fôra fazer um cinema comercial de qualidade, ou mesmo um cinema autoral, e não aquele tipo de filme onde a apelação era cada vez maior, numa busca sem limites pelo espetáculo mais grotesco, bizarro e escatológico – os títulos de filmes da época incluíam “Emoções Sexuais de um Jegue”, “Meu Marido, Meu Cavalo”, e “Alucinações Sexuais de um Macaco”. Os dias finais da Boca foram dominados pela figura trágica do anão Chumbinho, protagonista de várias das produções mais grotescas da história do cinema brasileiro e talvez mundial. Inclusive em alguns dos filmes de zoofilia o bicho é na verdade Chumbinho usando uma tosca fantasia.

O golpe final no cinema da Boca – e em todo o cinema nacional - foi dado pelo próprio governo brasileiro, que aliás nunca ajudou, pelo contrário, só atrapalhava - ao fazer vista grossa ao cumprimento das poucas leis de incentivo ao cinema nacional, ou mesmo revogando-as de vez.

E assim a multidão de artistas, técnicos, diretores e produtores que enchiam a Rua do Triunfo foi parar na Rua da Amargura. Alguns morreram de tristeza ou de tanto beber, outros até se mataram. Como lembra Concórdio Matarazzo:

“Aquela rua cheia de astros, de estrelas, de técnicos e de repente tudo terminar. Tantas pessoas, tantas histórias e de repente como se passasse a borracha em cima, tudo acabou e o vento levou.”.(19).

E Ozualdo Candeias:

Era uma vez a boca do lixo
da pornochanchada

Também era uma vez
uma rua chamada Triumpho
Carcaça, Toni e Garret
Thomé e Ody
e outros mais.

Já eram... uma vez.(20)
 

 

IV - Cracolândia

“Vive-se do roubo; o hóspede já não tem segurança junto do hospedeiro, nem o sogro junto do genro; entre os próprios irmãos, é rara a concórdia. O esposo ameaça a vida da esposa, e ela a do marido; as sinistras madrastas preparam venenos terríveis; o filho pretende abreviar os dias do pai. Jaz vencida a piedade, e a (...) última criatura celestial, abandonou a Terra empapada de sangue”

Ovídio, As Metamorfoses (21)

Conversa com um policial, por volta de 1990: “está vindo para São Paulo uma droga terrível que devastou os bairros negros dos EUA, vicia mais fácil que a cocaína e é muito mais barata. Quando chegar aqui, vai ser um deus nos acuda”. Pensei que fosse papo furado do policial querendo dar uma de bidu, mas eu estava enganado.

O crack consegue ir além da infame categoria de droga; é uma droga-veneno, que envenena o corpo, a mente, a família, o bairro e a sociedade. Tão destrutiva quanto a heroína, mas muito mais barata, é detestada e desprezada até pelos traficantes de drogas mais, digamos, previdentes, que chegam a proibir a venda de crack em seus territórios, pois consideram mais lucrativo manter seus clientes vivos por mais tempo.

Voltando mais um pouco no tempo, na metade da década de 80, parecia que uma caixa de Pandora havia sido aberta em São Paulo, espalhando pela cidade todos os males possíveis e imagináveis: para começar, a extraordinária era de progresso da qual eu falara no início, que se iniciou com a chegada da ferrovia ao tempo da Guerra do Paraguai e durou mais de 100 anos, se encerrou no ano de 1981. Durante esse período, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo, e São Paulo era a cidade que mais crescia no Brasil. Em 1981, começou a crise; fechava-se um ciclo e iniciava-se outro, que se estende até hoje. A princípio, todos achavam que a crise era passageira, que o país logo voltaria ao normal. Passou-se o tempo, os anos 80 foram chamados de “a década perdida”, a crise continuou, passaram-se os anos 90, chegamos a 2007, a crise continua até hoje, 25 anos depois, 25 anos de estagnação econômica, de frustrações, de esperanças perdidas, que já estão sendo chamados de “Longa Depressão” ou “a Era do Caos”. É a mais longa crise de nossa história – uma geração inteira de brasileiros cresceu sem saber o que é desenvolvimento, prosperidade, ordem e progresso, cresceram convivendo com a estagnação, com o marasmo e a apatia, vendo a vida passar nas filas de desempregados, olhares perdidos, sonhos desfeitos, desilusões, a angústia de ver um país tão promissor perder o bonde da história.

Devido à crise econômica, ou junto com ela, surgiram coisas antes inimagináveis na outrora progressista e orgulhosa capital dos paulistas. Antes, os paulistanos se gabavam de não haver favelas em sua cidade; agora as favelas se multiplicavam. Antes, se orgulhavam de poder andar tranqüilamente pela cidade até de madrugada, de se dar ao luxo de esquecer a porta de casa ou do carro aberta, agora tinham medo até de sair de casa. Antes, se orgulhavam da limpeza e beleza de seu centro histórico, agora o Centro estava decadente e imundo. Miséria, violência, desemprego, caos e vandalismo, tudo chegou ao mesmo tempo, e a Boca do Lixo foi especialmente afetada, pois o momento coincidia com a agonia do cinema da Boca, com a saída da Rodoviária para o Tietê, e com o fim dos trens de passageiros, que tinham nas Estações da Luz e Sorocabana o seu destino principal. O bairro que há pouco fervilhava, que vivia repleto de artistas, de técnicos, de diretores e produtores andando para todos os lados, de repente estava vazio, deserto, silencioso, sombrio. E esse vácuo foi ocupado pela mais assustadora criminalidade e pela mais abjeta degradação humana.

Os novos chefões da área eram conhecidos pelos apelidos de Dinho e Barba. Dois policiais corruptos. Eram eles que controlavam o tráfico de crack na região, e a crueldade de ambos se tornou legendária. Barba gostava de óculos escuros e calças camufladas, parecia o Falcon, e era um sádico que se comprazia em ver pessoas sofrendo e morrendo – quando encurralava suas vítimas nos quartinhos dos pulgueiros da região, divertia-se em dar-lhes duas opções: ou pulava pela janela ou levava um tiro, e mais de uma vez um infeliz foi se arrebentar na calçada abaixo. A dupla aterrorizou e barbarizou o bairro durante alguns anos até finalmente serem expulsos da polícia e presos. Mas o crime e a corrupção já tinham ficado totalmente fora de controle, e a Boca do Lixo se tornou símbolo do horror e da degradação na cidade e em todo o país, agora sob um novo e terrível nome – Cracolândia.

***
Agosto de 2006. Num final de tarde de sábado, um grupo de cidadãos caminha pela Boca do Lixo com o objetivo de reconhecer e fotografar - para, futuramente, procurar protegê-lo - o extraordinário, ainda que dilapidado, patrimônio arquitetônico do bairro, sem imaginar o que haveriam de encontrar pela frente. Chegando à pequena Rua dos Protestantes – assim chamada porque nela se situava o primeiro templo dessa religião em São Paulo – deparam com uma cena inacreditável e inesquecível: diante deles, um amontoado de pessoas de várias idades, cobertas de farrapos, cujo aspecto era de uma semelhança extraordinária com as fotografias dos sobreviventes de Canudos. Se exprimiam por gestos e sons desconexos, os olhares vidrados, e à primeira vista parecia que uma espécie de névoa ou vapor emanava deles. Quando nos aproximamos, percebemos que o grupo que estava no centro da roda fumava freneticamente cachimbos de crack, enquanto que ao redor deles outro grupo tentava aspirar a fumaça que saía dos cachimbos se contorcendo desesperadamente, como um peixe fora d’água que suplica por oxigênio através de espasmos lancinantes. Aquilo era a própria visão do nono círculo do Inferno.

Ao verem nossas câmeras, aqueles mortos-vivos começaram a nos cercar e aí a coisa ficou feia para nós. Aos berros e palavrões, ameaçavam nos cortar e furar porque achavam que estávamos ali para tirar fotos deles. Foi preciso muita calma, paciência, tato e firmeza para convencer os que aparentavam ser os líderes daquele bando de zumbis que não tínhamos a menor intenção de fotografá-los, que nosso interesse eram apenas os prédios da região. Conseguimos com muita dificuldade nos afastar e entrar na Rua Couto de Magalhães, que mais parecia um oásis de tranqüilidade, embora uma mulher especialmente alucinada, negra e de meia idade, tenha durante tensos minutos berrado, xingado, praguejado, vociferado e nos ameaçado de uma maneira tremendamente escandalosa e demencial por imaginar ter sido fotografada depois que um inadvertido flash chamou sua atenção. Tratava-se de um caso irrecuperável de danos cerebrais provocados pela droga, mesmo para a medicina mais avançada de hoje em dia.

Ali notamos que também havia no local pessoas normais, com o cérebro intacto, que na verdade tinham sido obrigadas a morar naquele lugar miserável por falta de opção, embora se trate definitivamente do pior lugar possível para se criar os filhos. Essas pessoas nos ajudaram a encontrar refúgio na lanchonete Pitchula, lugar modesto porém limpo, iluminado e decente, onde finalmente tivemos a sensação de ter passado a porta de saída do Inferno e voltado ao mundo civilizado, e onde nunca sentimos tanto alívio num prosaico refrigerante. De fato, experimentamos naquela ocasião na Pitchula uma sensação mais agradável do que teríamos em um restaurante de luxo em condições normais.

No vizinho Jardim da Luz, onde num dia perdido no tempo as meninas da cidade jogaram flores nos veteranos da Guerra do Paraguai para lhes dar as boas-vindas, hoje se vêem senhoras sessentonas fazendo ponto nas alamedas - talvez, quando na flor de sua juventude e no alvorecer de suas vidas tão melancolicamente vividas, tenham sido testemunhas das façanhas de Hiroíto nos seus tempos de reinado na Boca

Mas nem tudo é tristeza na Boca de hoje em dia. A Cinearte, sucessora da pioneira Cinedistri da Palma de Ouro em Cannes, permanece no mesmo prédio da Rua do Triunfo onde sempre esteve e de onde não tem planos para sair. Na Rua dos Andradas, o Bar do Léo ainda oferece o melhor chope de São Paulo. As gerações mais jovens estão redescobrindo o Cinema da Boca graças principalmente à Internet e a sítios como Estranho Encontro e Zingu, além do Canal Brasil na TV fechada. E a Fraternidade da Rua do Triunfo, embora desfalcada a cada ano que passa – em 2006 foi o lendário Jesse James, este ano foi Ozualdo Candeias – continua a se reunir religiosamente todo final de tarde ao redor de uma mesa de bar, não mais na Rua do Triunfo ou na Boca, não mais no finado Soberano, mas num botequim ainda mais modesto, baratinho, da Dom José de Barros 301, onde entre copos de chope contam piadas e causos, e discutem planos elaborados de filmes que ainda estão por acontecer.

E assim caminha a Rua do Triunfo, a rua-camaleão. De dia é uma, de noite é outra, já foi glamurosa, já foi gloriosa, hoje é uma judiação, mas nunca deixou de ser espantosa. De ciclos de altos e baixos que mais parecem o eletrocardiograma do coração da metrópole que pulsa sofrido por essa rua de sonho e desilusão, de sofrimento e de triunfo, de decadência e reinvenção, da sarjeta ao triunfo, da glória à agonia, da redenção à perdição, de auroras, de vitórias, de blefes e de trunfos. Imigrantes da Itália, malandros, boêmios, cineastas passaram e se foram. Ficaram os prédios, a memória viva da infinidade de histórias memoráveis que se passaram na mais universal das ruas paulistanas.

Jorge Eduardo Rubies

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NOTAS

1 - MARTINS, Alfredo Egydio. São Paulo Antigo, 1554-1910. São Paulo: Paz e Terra, 2003, pg. 62

2 - id. pg. 63

3- Auto da Entrega e Depósito da Gloriosa Bandeira dos Bravos Voluntários Paulistas. In: Os Voluntários Paulistas na Guerra do Paraguai. São Paulo: Arquivo do Estado de São Paulo, 1997, pg. 39

4 - Relatório da Comissão de Exame e Inspeção das Habitações Operárias e Cortiços no Distrito de Santa Ephigênia. São Paulo, 1893. In: SAMPAIO, M. R., (Coord.) - Habitação e Cidade. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo/FAPESP, 1998.

5 - PORTÃO, Ramão Gomes. Estórias da Boca do Lixo. São Paulo: Livraria Exposição do Livro, s.d. pg. 115.

6 - JOANIDES, Hiroito de Moraes. Boca do Lixo. São Paulo: Labortexto Editorial, 2003, pgs 35 e 37.

7 – id. pg. 255.

8 - JORGE, Clóvis de Athayde. Santa Ifigênia (História dos Bairros de São Paulo, vol 23). São Paulo: Departamento do Patrimônio Histórico, 1999, pg. 194

9 - STERNHEIM, Alfredo. Cinema da Boca: dicionário de diretores. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/ Fundação Padre Anchieta, 2005, pg. 16.

10 – CANDEIAS, Ozualdo R. uma rua chamada TRIUMPHO. São Paulo: ed. do autor, 2001. pg. 20

11 – JORGE, id. pg. 194

12 - CARDOSO, David. Autobiografia do Rei da Pornochanchada; roteirizada, editorada e copidescada por Henrique Alberto de Medeiros Filho. Campo Grande, Letra Livre, 2006, pg. 161

13 – id. pg. 162

14 – ibid. pg. 166

15 – Cláudio Cunha conta como era gostoso o nosso cinema. Cinequanon, out. 2005. Disponível em: http://www.cinequanon.art.br/entrevistas_detalhe.php?id=4 

16 - SIMÕES, Inimá Ferreira. O imaginário da Boca. Apud ABREU, Nuno Cesar Pereira de. Boca do lixo: cinema e classes populares. Campinas: Editora da Unicamp, 2006, pg. 60.

17 – ABREU, id. pg. 202.

18 – Um bate-papo entre Sylvio Renoldi e Rogério Sganzerla. Contracampo, Revista de Cinema nº 58. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/25/depoimento.htm 

19 – Entrevista: Concórdio Matarazzo. Revista Zingu! nº 2 - nov. 06. Disponível em: http://revistazingu.blogspot.com/2006/11/edicao-2.html 

20 – CANDEIAS, id. pg. 132.

21 - OVÍDIO. As Metamorfoses. Tradução de David Gomes Jardim Junior. Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint, 1983, pg. 14.
 

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