Mercado Municipal da Cantareira

Rua da Cantareira, nº 306 a 390; Rua Comendador Assad Abdala, s/n; Rua Mercúrio; s/n; Avenida do Estado, s/n

Número de pavimentos: um no edifício principal; dois nos anexos

Ano de conclusão: 1933

Uso: mercado

Arquiteto: Felisberto Ranzini

Proteção: Z8 200 - 075

 

O Mercado Municipal no ano de sua inauguração, 1933


O rio Tamanduateí já era, muito antes da fundação da cidade, uma estrada fluvial utilizada pelos indígenas que habitavam o Planalto de Piratininga (antigo nome do próprio rio Tamanduateí), para o transporte de toda sorte de mercadorias. O
Mercado da Cantareira não é o primeiro nem o último de uma série de mercados públicos construído na cidade, aproveitando a várzea dos rios para facilitar o transporte dos gêneros alimentícios. O primeiro mercado para abastecimento também ficava na várzea do rio Tamanduateí, na r. 25 de março, esquina com ladeira General Carneiro. Foi construído entre 1859 e 1867, e era um edifício rústico, constituído basicamente por um grande pátio com arcadas. Antes da construção desse mercado, o abastecimento da cidade se dava pelas feiras. Os gêneros alimentícios eram transportados de canoa, sempre pelo rio Tamanduateí, e descarregados num local que até hoje guarda o nome daquela época - ladeira Porto Geral. Nas cidades coloniais brasileiras, a venda desses produtos também se dava nas "ruas das Casinhas" - em São Paulo, a rua das Casinhas é a atual rua do Tesouro, e nela eram vendidos queijos, cereais, toucinho, aves, farinha, leite, ovos, e talvez também as formigas tão apreciadas pelos paulistas até o século XIX - uma sobrevivência do paladar indígena, e que lhes valeram a fama de "papa-formigas.

O primitivo mercado da rua General Carneiro foi demolido em 1907, para dar lugar a outro mercado - o chamado Mercado Novo - também demolido poucos anos depois. Outro mercado da época era o mercadinho da rua de São João, inaugurado em 1890, com estrutura de ferro pré-fabricada na Europa. Foi desmontado nos anos 10 quando a rua de São João foi alargada e se transformou na avenida São João, e remontado sob o viaduto de Santa Ifigênia, até ser definitivamente demolido alguns anos depois.

Todos esses pequenos mercados eram simples e acanhados, e não atendiam às necessidades da cidade que se expandia com enorme velocidade. Finalmente, em 1924 o município se decidiu a construir um mercado condizente com a importância e tamanho de São Paulo. Foi encarregado do projeto o italiano Felisberto Ranzini, do escritório Ramos de Azevedo.

Felisberto Ranzini, arquiteto do Mercado Municipal, nasceu em 18 de agosto de 1.881, e morreu em São Paulo, em 22 de agosto de 1976. Foi professor de Composição Decorativa da Escola Politécnica, e um aquarelista e desenhista consumado. Desde 1.904 trabalhava para Ramos de Azevedo, e a partir de 1.920, com a morte de Domiziano Rossi, passou a ser o principal projetista do escritório Ramos de Azevedo, onde trabalhou por quarenta e dois anos. Pouca gente sabe, mas a maioria dos projetos atribuídos a Ramos é na verdade de seus colaboradores e auxiliares. Ramos de Azevedo foi sobretudo o grande empreiteiro de São Paulo na República Velha, graças a suas excelentes conexões políticas.

As obras tiveram início em 10 de abril de 1.925. Acabaram se arrastando por quase oito anos. Em 1.932, estavam finalmente concluídas, mas a inauguração teve de ser adiada por conta da Revolução Constitucionalista - o prédio do Mercado foi utilizado como depósito de munições. Derrotada a Revolução, o Mercado foi finalmente inaugurado em 25 de janeiro de 1.933.

 

 

 

 

 

À esquerda foto do Mercado em construção; à direita,

o Mercado logo após sua conclusão. Fonte: acervo FAU-USP

A escolha do local foi cuidadosa: o Mercado Municipal ocupa uma posição estratégica, próximo à rede ferroviária e à estação do Pari, conectado às linhas de bondes, situado no eixo que liga a zona norte ao ABC e a Santos, e às margens do rio Tamanduateí, a estrada fluvial por onde foram transportados por séculos os ítens que abasteciam a cidade. Infelizmente, ao contrário de Paris com o Sena, de Londres com o Tibre, de Nova York com o Hudson, que são rios ativamente utilizados para o transporte de mercadorias, já que os custos de transporte fluvial constituem uma fração do rodoviário, os rios paulistanos foram totalmente abandonados para esse propósito.

À esquerda foto do Mercado no dia da inauguração;

à direita, visto do rio Tamanduateí. Fonte Fau-USP

O edifício monumental ocupa um grande quarteirão de 22.230 m², delimitado pelas ruas da Cantareira, Mercúrio, Assad Abdala e avenida do Estado. Sua localização às margens do Tamanduateí oferece uma série de magníficas perspectivas desde a av. do Estado e do parque d. Pedro. Além do prédio principal, há dois pequenos prédios anexos de dois andares, destinados originalmente à administração e a um restaurante. O pé direito, que chega a atingir 16 metros, se deve à previdência do arquiteto que imaginou a possibilidade de expansão através da futura construção de um mezanino - o que veio a ocorrer justamente com a reforma concluída este ano.

Outra foto do Mercado Municipal após a inauguração.

Fonte FAU-USP

A área construída é de 12.600 m² e foi originalmente dividida da seguinte forma: 40% para cereais, legumes, frutas e flores; 20% para laticínios e salgados; 10% para carnes verdes; 10% para peixes e os 20% restantes para aves, caças e outros animais.

A estrutura do edifício é de concreto armado, que começava a se popularizar em São Paulo. A composição da fachada é marcada por uma série de arcos, com fecho em forma de mascarões de rostos femininos, encimados por cornucópias cheias de frutas. Na rua da Cantareira e na av. do Estado há duas torres que se projetam da fachada, sendo que apenas na rua da Cantareira são coroadas por cúpulas revestidas de bronze, pelo que sei, se localizariam os refrigeradores. Os arcos dessas torres são fechados pelo brasão da cidade de São Paulo, criado poucos anos antes pelo artista J. Wasth Rodrigues, por iniciativa do então prefeito Washington Luís. O ponto alto da decoração são os cinco vitrais que retratam cenas campestres, de autoria de Conrado Sorgenicht Filho, o grande nome da arte em vitral de São Paulo. Era de uma família de mestres vitralistas alemães, que com Conrado Sorgenicht pai trouxeram sua apurada técnica para São Paulo no final do século XIX, e também foi o autor dos vitrais da Estação Sorocabana e de vários outros edifícios importantes. A confecção dos vitrais do Mercado Municipal demandaram a Conrado cinco anos de trabalho árduo. E no final dos anos 80, Conrado Sorgenicht Neto se encarregou da restauração dos vitrais que seu pai havia criado sessenta anos antes.

Como os mercados públicos que o antecederam, o Mercado da Cantareira acabou, ele próprio, se tornando insuficiente para a cidade que mais crescia no mundo, malgrado suas dimensões colossais. Acabou sendo substituído pelo CEASA, construído entre 1.961 e 1.966 às margens de outro rio - o Pinheiros (curiosamente, o próprio CEASA já se tornou obsoleto, e está sendo planejada uma nova central de abastecimento no rodoanel, a Ciap). As enchentes do Tamanduateí, só controladas no final dos anos 70, também prejudicavam seriamente o Mercado, como por exemplo, a inundação de 1.966, que alagou o prédio até a altura de um metro.

Chegou-se inclusive a cogitar na demolição do velho mercado nos anos 60, mas optou-se por sua preservação, adotando-se um perfil mais varejista, e mantendo-se os tradicionais boxes que passam de geração para geração, e sua variada clientela que inclui donas de casa, gourmets exigentes e chefs de restaurantes famosos. O Mercado passou por uma restauração em 1.979 e novamente no final dos anos 80.

E recentemente, o Mercado passou por sua mais abrangente modernização e restauração, com projeto do arquiteto Pedro Paulo de Melo Saraiva e do escritório Maria Luíza Dutra. Ganhou um mezanino de 2.000 metros quadrados, servido por dois elevadores e duas escadas rolantes, onde estão sendo instalados diversos restaurantes de comida brasileira, japonesa, espanhola, árabe e italiana, entre outros. Essa adição do mezanino de forma alguma desrespeitou a arquitetura original do edifício, pois como explicamos anteriormente, já havia sido antecipada por Felisberto Ranzini. O piso do novo mezanino é de madeira e também de tijolos de vidro, garantindo iluminação às áreas abaixo.

Mezanino - vista aérea esquemática
Fonte - PPMS - Paulo Pedro de Melo Saraiva Arquitetos Associados S/C Ltda.

 

Também foi escavado um subsolo com área de 1.600 metros quadrados com sanitários, vestiários, fraldário e enfermaria.

As redes elétrica e hidráulica foram totalmente refeitas, sendo instalada uma subestação de energia, três transformadores e caixas de medição individuais para cada box. As gambiarras e o emaranhado de fios e canos que comprometiam a estética do interior do Mercado foram eliminados; foi implantada uma rede de tubulações de gás, que antes era fornecido através de botijões; o fornecimento de água, realizado anteriormente por carros-pipa, foi regularizado. As calhas do telhado foram recuperadas, as telhas foram lavadas e as que estavam quebradas, substituídas.

O piso do Mercado foi inteiramente substituído, com placas de granito flaneado. A calçada externa foi totalmente refeita, com rampas para acesso de deficientes físicos, os estacionamentos das ruas Mercúrio e Assad Abdala foram repavimentados com pisos de concreto, as vagas foram redistribuídas e criadas áreas para portadores de deficiências.

As fachadas foram inteiramente restauradas, recebendo pintura na cor original do edifício; para se descobrir o tom original, foram feitas prospecções, com decapagens das sucessivas camadas de pintura, até se chegar à cor original. A tinta utilizada é de fabricação artesanal, à base de dióxido de rutila, possibilitando que a parede "transpire", eliminando o excesso de umidade.

Planta geral do projeto
Fonte - PPMS - Paulo Pedro de Melo Saraiva Arquitetos Associados S/C Ltda.

 

No tocante à iluminação, foram substituídas as lâmpadas mistas de 125 W e vida útil de 4.000 horas, por outras de vapor metálico de 150 W e 15.000 horas de duração. Foram instaladas novas luminárias pendentes de vidro prismático, com distribuição de luz direta e indireta.

Os vitrais passaram a ser iluminados pela primeira vez, com lâmpadas de vapor metálico de 70 W sobre cada um.

No exterior, os projetores de vapor de sódio de 400 W foram substituídos por luminárias embutidas no chão, com lâmpadas de vapor metálico de 70 W.

As obras custaram R$ 34 milhões, e podemos dizer que valeram cada centavo. Só esperamos que o projeto de uma inútil passarela sobre o rio Tamanduateí, que desonrará as melhores vistas que se têm do Mercado, desde a outra margem do rio, seja descartado pela Prefeitura.

O Mercado Municipal é o último dos grandes edifícios em estilo eclético de São Paulo. Até hoje mantém com dignidade as funções para as quais foi projetado, inteiramente preservado, enquanto que outros edifícios históricos sucumbiram à degradação do centro ou à especulação imobiliária. Constitui um marco e um referencial da cidade, como outros grandes mercados pelo mundo, como o Les Halles, de Baltard, em Paris, o Mercado da Praça XV no Rio de Janeiro (ambos demolidos), o Mercado de Abasto de Buenos Aires ou o Ver-o-pêso de Belém.

É uma verdadeira catedral da gastronomia paulistana, atraindo gourmets, chefs de cozinha, turistas, donas de casa e moradores da cidade em geral, a fim de uma refeição rápida ou à procura de comidas finas. Ali podem ser encontradas as mais delicadas iguarias, as mais finas especiarias, peixes, crustáceos, embutidos, queijos, vinhos, conservas, frutas, vindas de todas as partes do mundo. O Mercado Muncipal é um prédio querido por todos os paulistanos e que entra no século XXI moderno e high-tech porém preservando suas funções originais e sua arquitetura do início do século XX.

Dados do Mercado Municipal:

Funcionários: 1.600

Área construída: 12.600 metros quadrados

Quantidade de alimentos: 1.000 toneladas por dia (atacado e varejo)

Boxes: 281

Visitantes: 14 mil por dia

Caminhões que abastecem os boxes: 90, em média, chegam e saem do Mercadão por dia

Gasto de água: 1.200.000 litros gastos mensalmente

Gasto de eletricidade: 500 kw/h por mês (há previsão de aumento para 780 kw/h depois da reforma)

Horário de funcionamento: de segunda-feira a sábado, das 6h às 17h e das 22h às 6h; aos domingos, das 7h às 13h

Ingresso: a entrada é gratuita

Dados sobre as obras de revitalização:

Funcionários: até 750 operários trabalharam na obra em dois turnos: 500 durante o dia e 250 à noite

Nova área construída: 8.000 metros quadrados (metade construída e outra metade reaproveitada)

Acesso: Sete elevadores, além de duas escadas rolantes e duas convencionais

Estrutura: 35 mil sacos de cimento foram utilizados na reforma (o que gerou 4.500 metros cúbicos de concreto); 413 mil kg de aço consumidos na estrutura do novo mezanino; mais de 8.000 metros quadrados de granito para o novo piso; 1.400 metros quadrados de vidros para o piso do mezanino (que tem 372 metros quadrados), considerando janela e cobertura; 1.700 metros quadrados de madeira colocados no piso do mezanino; 350 toneladas de estrutura metálica para o mezanino; 4.400 metros cúbicos retirados em demolições

Pintura: 250 latas de tinta, utilizadas para pintar 26 mil metros quadrados de paredes

Subsolo: 5.000 metros cúbicos de terra foram retirados na construção do subsolo (o equivalente a mais de mil caminhões)

Iluminação: 180 km de cabos de energia foram instalados; mil pontos de iluminação (interna e externa) foram criados

Fonte: Secretaria Municipal de Abastecimento

Bibliografia:

LEMOS, Carlos A. C. - Ramos de Azevedo e seu escritório - São Paulo: Pini, 1993

REIS FILHO, Nestor Goulart - São Paulo e outras cidades - São Paulo: Hucitec, 1994

Secretaria dos Negócios Metropolitanos - Bens culturais arquitetônicos no município e Região Metropolitana de São Paulo. São Paulo, 1984.

Agradecimentos: Aline - imprensa - Secretaria Municipal do Abastecimento


Fotos - créditos: Jorge Eduardo Rubies

Clique nas imagens para ampliar:

Fachada

Mezanino

Capitel

Cobertura

Vitral

Detalhe de vitral

Detalhe de vitral

Detalhe de vitral

 
 

Detalhe de vitral

Detalhe de vitral

 

Detalhe de vitral

 

Mascarão de rosto feminino

Brasão da cidade de São Paulo

 

Placa comemorativa da inauguração

 

Jorge Eduardo Rubies

 

 

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