Mosteiro e Igreja de São Bento

A Ordem dos Beneditinos se estabeleceu em São Paulo ainda nos primórdios da cidade, e aqui desempenhou um papel da maior importância desde o período colonial. Segundo Antonio Egydio Martins "O Mosteiro de São Bento teve princípio por uma ermida, dedicada à Senhora do Monte Serrat, que em 1598 foi ereta por devoção do sétimo governador geral do Brasil, D. Francisco de Souza e por Frei Mauro Teixeira, que da Bahia veio mandado pelo provincial para fundar o atual mosteiro desta Capital, e para o qual foram, a 4 de julho de 1598, concedidas pelo Capitão-Mor Jorge Corrêa, duas semarias, (...) sendo que só em 1600 é que se realizou a fundação do referido mosteiro, por Frei Mateus da Ascensão, que foi o primeiro prior do convento, Frei Bento da Purificação, pregador, e o governador geral mudou o nome da igreja e mosteiro para o de Santíssima Virgem do Monte Serrat" (1).

Vieram se juntar ao pioneiro Frei Mauro em 1600, além de Frei Mateus, Frei Antonio da Assunção e Frei Bento da Purificação, os três vindos na comitiva de D. Francisco de Sousa, senhor de Beringel e sétimo Governador-Geral do Brasil, que se instalou São Paulo nos dois últimos anos de seu governo, até 1602, e fazendo da até então minúscula povoação a capital de fato da colônia naquele biênio, no lugar da já opulenta Salvador. Cabe aqui um parênteses para explicar o porquê de o Governador-Geral ter trocado a então capital oficial do Brasil por este fim de mundo, que o encantou tanto que aqui passou a residir mesmo depois de deixar o governo, e onde faleceu em 1611: ele estava plenamente convencido de que São Paulo, por sua localização estratégica, era a chave para o descobrimento das míticas minas de ouro de Sabarabuçu, o que faria do povoado planaltino "uma segunda Potosí" (2) e, seja porque fosse um obcecado por essa idéia, seja porque fosse um visionário que previu com três séculos de antecedência a importância que São Paulo viria a ter. De qualquer forma, pode se dizer com justeza que esse personagem esquecido da história que foi D. Francisco foi responsável por uma verdadeira refundação da cidade, a qual dotou de uma estrutura administrativa condigna para a residência de um Governador-Geral, ainda que não fosse a capital oficial do Brasil, e se dedicou à concepção e execução alguns projetos extraordinários para a realização de seu sonho de encontrar ouro, tais como a importação de lhamas do Peru! À devoção de D. Francisco à Virgem de Monte Serrat se explica a escolha desta para padroeira da Igreja dos beneditinos.

 

Afresco na entrada da Capela do Colégio de S. Bento representando uma reconstituição hipotética da primeira Igreja da Ordem de S. Bento no início do séc. XVII.

A verdadeira fundação do mosteiro, como se viu acima, se deu em 1600, conservando-se até os nossos dias o texto da escritura de posse do terreno cedido aos monges "para sempre até o fim do mundo" e transcrito no Livro do Tombo do mosteiro:

"Os oficiais da Câmara desta vila de São Paulo Capitania de São Vicente etc. Nós o Capitão Baltazar de Godoy, e João Maciel, Gaspar Vaz Juiz ordinário, João Fernandes procurador do Conselho etc. Aos que esta nossa Carta de Sesmaria de chãos para sítio de Convento virem, e o direito dela com direito pertencer fazemos a saber, que por sua petição nos enviou a dizer Fr. Matheus da Ascensão Prior da Casa de São Bento novamente fundada nesta dita vila, que ele fora enviado de Seu Maior a esta Capitania de São Vicente para nela edificar Mosteiro aonde mais decente, e melhor lhe parecesse: e porquanto nesta vila lhe pareceu bem, e achou já feita uma Ermida em certo sítio, e chão que lhe fora assinado pelos oficiais nossos antepassados, fora desta vila partindo com Gonçalo Madeira de uma banda, e da outra com Jorge João, em o Rio grande que vai por baixo desta vila (ou seja, o atual Tamanduateí), e um ribeiro chamado Anhangabahy naquele alto por cima da casa de Gaspar Nunes, pedindo-nos que dos ditos lhe mandassemos passar Carta, e dar deles posse, segundo que da dita petição era declarado, que por nós vista com a informação que com o Escrivão Belchior da Costa tomamos, por nos constar ser como ele dito Padre diz, e alega por serviço de Deus nosso senhor, e deste povo, e bem-aventurado São Bento, lhe damos, e havemos por dados os ditos chãos assim, e da maneira que foram assinalados pelos ditos oficiais passados, e mais se amplia, e compridamente, e se mostra ser sem dano de partes, e podíamos fazer lhe nomeamos todos os chãos, que naquele lugar de suas demarcações, e confrontações houver que dados não forem os quais serão para Convento, Mosteiro ou Casa do dito Santo para que seus Padres, e Ministros façam deles o que lhe bem estiver os quais lhe damos forros, livres e isentos de todo o tributo e pensão que à dita Câmara pertence deste para sempre até o fim do mundo dos quais chãos lhe será dada a posse na forma costumada pelos ministros da Justiça de que lhe mandamos passar a presente por nós assinada a qual será registada no Livro dos registos para que conste. Dada sob nosso sinais hoje 15 de Abril Belchior da Costa Escrivão da Câmara fez por nosso mandado no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1600 annos // Baltazar de Godoy // João Maciel // Gaspar Vaz // Jeronimo Fernandes."(2)

A sesmaria concedida aos beneditinos, que era onde se situou a última aldeia do cacique Tibiriçá, correspondia ao vértice norte do Triângulo, o morro de formato triangular onde nasceu a cidade e que hoje é o Centro Velho, sesmaria essa delimitada pelo Anhangabaú, a oeste, pelo Tamanduateí, a leste, e pelo Largo de São Bento, ao sul. Inicialmente os beneditinos se instalaram justamente na ponta de sua sesmaria, no local da confluência do Anhangabaú com o Tamanduateí,  - ou seja, onde atualmente está a esquina da 25 de Março com a Florêncio de Abreu - já fora dos limites da vila e um pouco mais ao norte do sítio dos mosteiros posteriores, como se pode comprovar das palavras de um cronista anônimo do século XVIII: "na parte mais aprazível de toda a Cidade por ficar fora dela; porque correndo-lhe por baixo do Mosteiro de sua parte, que é a do nascente, o Rio Tamandatihy, que por esta parte o cerca, formando essa formosa enseada a terra, a fecha de tal sorte com o Rio Inhangabahú, que pela parte do poente corre deixando em cima no pavimento da terra, o lugar para quem vem ao Mosteiro o possa entrar de maneira que parece está fora da mesma Cidade".(4)

Desde o início o  mosteiro esteve relacionado com importantes episódios da história da cidade. Um dos mais famosos, a aclamação de Amador Bueno rei de S. Paulo, fato assim descrito por Frei Gaspar da Madre de Deus (que aliás era beneditino):

"... chegam a ameaçá-lo com  a morte se não quiser empunhar o cetro. Vendo-se nesta consternação o fiel vassalo, saiu de sua casa furtivamente e, com a espada nua na mão para se defender, se necessário fosse, caminhou apressado para o Mosteiro de S. Bento, onde intentava refugiar-se. Advertem os do concurso, que havia saído pela porta do quintal, e todos correm após ele, gritando: viva Amador Bueno, nosso Rei: ao que ele respondeu muitas vezes, em voz alta: viva o Senhor D. João IV, nosso rei e senhor, pelo qual darei a vida."

"181. Chegando Amador Bueno da Ribeira ao Mosteiro, entrou e fechou rapidamente as portas. Como os paulistas antigos veneravam sumamente os sacerdotes, principalmente aos Regulares, nenhum insultou ao Convento e todos pararam na parte de fora, insistindo porém na sua indiscreta pretensão. Desceu à portaria o D. Abade, acompanhado da sua Comunidade, e, com atenções entreteve a multidão, enquanto Amador Bueno da Ribeira mandou chamar à pressa os eclesiásticos mais respeitáveis, alguns sujeitos do sprincipais que não se achavam no concurso. Vieram logo uns e outros, e todos unidos ao dito Bueno fizeram compreender aos circunstantes que o Reino pertencia à Sereníssima Casa de Bragança..."(5)

A historicidade desse episódio é questionável, ainda mais a floreada versão de Frei Gaspar da Madre de Deus. No entanto, há outros fatos do mesmo período de veracidade comprovada, como por exemplo, a munificência de Fernão Dias Paes, o grande benfeitor da Ordem em São Paulo, e que doou os recursos para a construção de um novo mosteiro em 1650, já no local atual, um pouco ao sul do primeiro e mais próximo da cidade. Conta-nos Pedro Taques que "Ainda era solteiro Fernão Dias Paes quando tomou a virtuosa resolução de despender os seus cabedais fundando, como fundou o mosteiro, que ainda hoje existe do patriarca São Bento, da cidade de São Paulo, cujos monges existiam dantes em uma limitada casa e igreja; construiu-se esta obra com três grandes dormitórios e igreja, que a fez acabar com coro, púlpito e altares, e dotou esta casa com cem índios para cultura das terras dos religiosos. Estabeleceu patrimônio para sustentação do azeite da lâmpada do altar-mor, onde está o sacrário, em uma rendosa fazenda chamada de São Caetano, com fábrica de olaria para cozer telha e tijolo; e ao presente tempo é o rendimento mais certo que tem este mosteiro. Ornou a capela-mor com a lâmpada de prata e castiçais do mesmo metal para a banqueta do altar-mor cujos móveis ainda existem, recordando nos monges a memória deste benfeitor e fundador."

"Em agradecimento da construção e fundação deste convento cederam os religiosos monges por escritura celebrada na nota do tabelião de São Paulo João Dias de Moura, o pavimento da capela-mor para jazigo do fundador e seus descendentes por linha reta, tendo-os, e os das linhas oblíquas."(6)

Falecendo Fernão Dias Paes em 1681 nos sertões do Rio das Velhas, durante sua expedição em busca das esmeraldas, seus ossos foram descarnados e enviados num baú para São Paulo, para serem enterrados no interior da Igreja. Durante a construção da atual Igreja, seus restos foram exumados, e segundo Affonso de Taunay "Aberto o tosco jazigo foram encontrados um fêmur de homem agigantado, duas ou três vértebras do sacro, pedaços de parietal e de occipital, a que aderiam restos de cabeleira ruiva, encanecida de cabelos muito finos, de individuo indubitavelmente branco. Ao lado havia duas solas de sapatos, sem salto, bem conservadas, pedaços de cordão como os de S. Francisco e galão de prata, e, o que é mais curioso, uma grande funda de ferro guarnecida de couro para hérnia, apoiada numa cinta também de ferro e cujo uso devia ser sobremaneira incômoco para indivíduos menos rudes que o estóico bandeirante".(7)

Uma vela perpetuamente acesa dentro da Igreja (atualmente, alimentada por energia elétrica), também homenageia o principal benfeitor da Ordem em São Paulo.

Placa de bronze que marca o túmulo  de Fernão Dias Paes

O mosteiro contou com outros benfeitores poderosos, entre eles ninguém menos que o temível Manuel Preto, destruidor das reduções jesuíticas do Guairá, e que também assumiu o bem mais piedoso encargo de procurador dos bens do mosteiro, estando ausente Frei Mauro. Outro benfeitor digno de nota, esse já no século XVIII, foi José Ramos da Silva, contratador das bebidas alcoólicas vendidas na cidade, pai do tratadista Mathias Aires, e cuja largueza e generosidade fizeram com que, em 1720, a padroeira da Igreja fosse mudada de Nossa Senhora do Monte Serrate para Nossa Senhora da Anunciação, de quem era devoto.

Por volta de 1770, iniciou-se a construção da terceira Igreja de São Bento, com projeto do famoso brigadeiro José Custódio de Sá e Faria, um dos melhores engenheiros militares de seu tempo, e que mais tarde, depois de cair prisioneiro dos espanhóis durante uma das freqüentes guerras no sul do Brasil, teria vindo a projetar nada menos que a Catedral de Montevidéu. Essa foi a igreja que subsistiu até 1910, com algumas alterações numa reforma realizada em 1877. Na Igreja de S. Bento, Faria contou com a colaboração do mestre-entalhador José Pereira Mutas, cujo único trabalho que ainda subsiste até hoje é o belo Cristo Crucificado que se acha na nave lateral, e também a única escultura de madeira feita em São Paulo no século XVIII de autoria identificada, das cinco que se conhecem (8); aliás, além do autor, sabe-se também a data exata de sua inauguração: 14 de setembro de 1777.

Igreja e Mosteiro de S. Bento em 1862. Foto de Militão Augusto de Azevedo

Contando com a proteção e as doações de alguns dos homens mais poderosos da São Paulo colonial, entre outros, a Ordem dos Beneditinos acabou se tornando uma das maiores proprietárias de imóveis da cidade. Caso da Fazenda São Caetano, antiga Tijucuçu, doada em 1631 pelo capitão Duarte Machado e acrescida de 500 braças de terras doadas por Fernão Dias em  1671 e que, além de fornecer alimentos transportados até a cidade através de canoas monóxilas (feitas com um só tronco de árvore) pelo Rio Tamanduateí, também possuía uma olaria que produzia as telhas que cobriam os telhados da São Paulo do período colonial, feitos com o famoso barro cinzento que era considerado o melhor do Brasil, além de tijolos - pouco usados na São Paulo da época, que preferia a taipa. Em 1768, a ordem possuía 32 prédios, que rendiam mensalmente 27 mil réis.(9) A rica ordem aderiu à causa da independência do Brasil, contribuindo com a vultosa quantia de 200 mil réis.(10) Porém, a opulência material contrastava com a decadência espiritual, agravada com o desencorajamento do governo imperial às ordens religiosas - o que culminou com lei de 1855 que extinguia os noviciados. Em 1854, a Ordem possuía "64 prédios, localizados na capital paulista no valor de 60:000$000, duas fazendas no valor de 8:000$000 e cem escravos no valor de 40:000$000 (...) havia um abade e dois monges". (11 )

Em fins do século XIX, a Ordem parecia destinada ao desaparecimento em São Paulo. O único religioso era o velho abade, Frei Pedro da Ascensão Moreira. Porém, eis que justamente nesse momento entra em cena a personalidade extraordinária de D. Miguel Kruse. Alemão de nascimento, devido às perseguições à Igreja Católica naquele país, mudou-se para os Estados Unidos e foi ordenado padre no Equador, mas não conseguiu realizar seu sonho de entrar para a Ordem de S. Bento - o que só aconteceria quando veio para o Brasil. Em 1900, está em São Paulo, e se dedica com infatigável zelo à recuperação da Ordem em São Paulo; em 1907, assumiu o posto de abade. Dotado de uma energia excepcional e grande capacidade administrativa, em 1910 dava início as obras de um inteiramente novo complexo beneditino, que se estenderam até 1922. Para tanto, o velho conjunto do século XVIII foi demolido, e São Paulo perdeu uma de suas mais importantes relíquias históricas do período colonial. Em compensação, ganhou uma obra de arte excepcional, comparável a poucas no mundo inteiro.

O novo conjunto foi totalmente edificado de acordo com o estilo Beuron, assim chamado por ter se originado no mosteiro de Beuron, na Alemanha, no final do século XIX. Os princípios do estilo Beuron foram sistematizados pelo Padre Demetrius Lenz, um de seus criadores. Alguns deles são:

- A arte fala para a mente de quem a observa. A arte é em si venerável e convida o observador à veneração. Ela não se destaca de modo atrevido por si só, mas é parte de um ambiente de veneração.

- As obras são anônimas, feitas por esforço coletivo, e não para a glória do artista, mas de Deus.

- Da mesma forma que com os ícones, o estilo Beuron favorece a imitação ao invés da originalidade, com a cópia a mão livre revelando o verdadeiro gênio de um artista.

- Há uma integração total da arte e da arquitetura. A pintura e a escultura não são 'adesivos' de um projeto arquitetônico, mas parte integral deste. A arte Beuron compreende a pintura, arquitetura, cálices e mobiliário.(12)

Esse estilo combina elementos das artes egípcia, bizantina e românica gerando no entanto um resultado harmonioso e de fulgurante beleza. Creio também que o estilo Beuron tenha sido influenciado pelos pré-rafaelitas e pelo movimento Arts and Crafts da Inglaterra, ou que todos tenham sido influenciados por uma fonte comum, dadas as semelhanças entre eles.

Infelizmente grande parte dos mosteiros decorados com o estilo Beuron foram descaracterizados ou destruídos, antes e durante a II Guerra Mundial. O Mosteiro de S. Bento em São Paulo é um dos poucos remanescentes desse estilo ainda íntegros no mundo inteiro.

A sóbria fachada de granito cinza, ornamentada parcimoniosamente com algumas esculturas (entre elas a colossal estátua em bronze do patriarca S. Bento, de 3 metros de altura, de autoria de Heinrich Waderé, que foi professor da Academia de Belas-Artes de Munique), baixos-relevos e painéis de terracota, não dá nenhuma pista do que irá se encontrar no interior da igreja: não há uma superfície, do chão ao teto, que não seja coberta com ricas pinturas, esculturas, vitrais ou mosaicos. O projeto arquitetônico é do alemão Richard Berndl; as pinturas, esculturas e demais ornamentos são de autoria de monges-artistas alemães e belgas, escolhidos a dedo entre os religiosos beneditinos com maior aptidão para as artes, e submetidos a anos de intenso treinamento artístico (nada a ver com os grafiteiros de hoje em dia, que após uma passagem pela "escola" da pichação já se consideram no direito de encher a cidade inteira com sua "arte). Segundo Percival Tirapelli, as pinturas da Igreja são do beneditino belga D. Adalberto Gressnicht, auxiliado pelo irmão Clemente Maria Frischauf. A respeito de D. Adalberto, conta Leonardo Arroyo que era considerado "um homem notável, dotado de vários predicados. Depois do seu trabalho em São Bento, foi chamado para decorar a igreja de Santo Anselmo em Nova York. Em seguida foi para a China construir igrejas. Em Roma esculpiu o túmulo de Pio XI. Monge bem dotado, escultor, pintor, arquiteto e cantor".(13)

As esculturas sobre a trave da capela-mor foram feitas em 1921 por Anton Lang, sendo restauradas recentemente - duas delas (Adão e Eva), foram içadas de volta à trave com o auxílio do Corpo de Bombeiros. O altar-mor foi realizado na Itália, os detalhes em bronze são das oficinas da abadia belga de Maredsous, e as imagens de N. Sra. das Dores, Santa Ana, Santa Gertrudes e dos doze apóstolos, que estão na nave, foram feitas entre 1919 e 1922 pelo belga Adriano Henrique Emelen (14).  Algumas imagens e pinturas da igreja colonial são conservadas no atual templo, sendo uma das mais importantes o Cristo Crucificado de autoria de José Pereira Mutas.

Outro destaque é o órgão fabricado na Alemanha em 1908, da empresa Späth, instrumento tocado durante as famosas sessões de canto gregoriano.

O complexo beneditino abriga também o tradicional Colégio de São Bento, fundado por D. Miguel Kruse em 1903, e onde estudaram diversas figuras ilustres do estado e do país.

Ao longo de sua longa história, o Mosteiro de S. Bento passou por períodos altos e baixos; nos piores momentos, os monges chegaram a passar fome e frio, sendo uma das poucas fontes seguras de receita os tradicionais bolos vendidos pelo mosteiro, feitos de acordo com receitas secretas e ancestrais. Durante as obras da linha Norte-Sul do metrô e da estação São Bento, na primeira metade da década de 70, o Mosteiro sofreu rachaduras e outros danos, e por essa mesma época Luís Saia, um dos mais radicais adeptos do estilo modernista, e que só via qualidades nesse estilo e na arquitetura colonial, vociferava pela demolição do mosteiro.

Porém atualmente (2007), o mosteiro passa por uma de suas melhores fases, tendo alojado em suas dependências ninguém menos que o Sumo Pontífice. As obras de restauro da inestimável coleção de objetos e obras de arte, há duas décadas chefiadas por dois dos maiores restauradores do Brasil, Nilva Calixto e Sylésio Soares, estão a todo vapor. Em meio à febril atividade das semanas que antecederam a visita do papa, o casal de restauradores gentilmente abriu um espaço em sua sobrecarregada agenda para receber um grupo de membros da Associação Preserva São Paulo, ocasião em que explicaram ao grupo cada detalhe do paciente, delicado e complexo processo de restauração do Mosteiro.

A restauradora Nilva Calixto explica aos membros da Associação Preserva São Paulo os detalhes da restauração das obras de arte do Mosteiro

Com a visita do papa, esta jóia da arquitetura e arte mundiais finalmente está recebendo o reconhecimento que merece - uma preciosa manifestação de um estilo raro e fascinante

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NOTAS

1 - MARTINS, Alfredo Egydio. São Paulo Antigo, 1554-1910. São Paulo: Paz e Terra, 2003, pg. 159.

2 - Livro do Tombo do Mosteiro de São Bento da cidade de São Paulo. Prefácio de Sérgio Buarque de Holanda. São Paulo: O Mosteiro, 1977, pg. XVI (Prefácio).

3 - Id. pgs. 8-9.

4 - Para o Registro e Dietario do Mosteiro. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. São Paulo: vol. XVI, pg. 280. Apud ARROYO, Leonardo. Igrejas de São Paulo. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1954, pg. 98.

5 - MADRE DE DEUS, Gaspar da, frei. Memórias para a história da Capitania de São Vicente. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975, pgs. 140-141.

6 - LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarquia paulistana histórica e genealógica. 5 ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980, pg. 77.

7 - TAUNAY, Affonso de E. A grande vida de Fernão Dias Paes. In. Anais do Museu Paulista, Tomo IV, pg. 170. Apud ARROYO, op. cit. pg. 111.

8 - RIBEIRO NETO, Pedro A. de Oliveira. A Arte Colonial Paulista. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. São Paulo: vol. LXX, pg. 221. Apud. Livro do Tombo do Mosteiro de São Bento da cidade de São Paulo, op. cit. pg. 202.

9 - Livro do Tombo do Mosteiro de São Bento da cidade de São Paulo, op. cit. pg. XXVIII.

10 - ARROYO, op. cit. pg. 108

11 - Relação dos Conventos, Confrarias, Recolhimentos, Capelas e Bens vinculados que há na Província de São Paulo no ano de 1854, com declaração de seus rendimentos provenientes de qualquer origem que seja". Arquivo do Estado de São Paulo. Apud. WERNET, Augustin. Vida religiosa em São Paulo (1554-1954) In: PORTA, Paula (org.). História da Cidade de São Paulo, v. 1: a cidade colonial. São Paulo: Paz e Terra, 2004, pg. 215.

12 - Beuron Art School. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Beuron_Art_School. Acessado em 08/05 de 2007.

13 - ARROYO, op. cit. pg. 110.

14 - TIRAPELI, Percival. Igrejas paulistas: barroco e rococó. São Paulo: Editora UNESP; Imprensa Oficial do Estado, 2003, pg. 196.

Agradecimentos: Dom Abade Mathias Tolentino Braga; restauradores Sylesio Soares e Nilva Calixto; monges e funcionários do mosteiro.

Artigo escrito por Jorge Eduardo Rubies

Defendemos a livre e gratuita circulação do conhecimento através da Internet. Autorizamos a livre reprodução deste artigo e das fotos nele contidas desde que citada a fonte.

Dados para referenciação bibliográfica:

RUBIES, Eduardo. Igreja e Mosteiro de São Bento. Site piratininga.org. Disponível em: <http://www.piratininga.org/igreja-de-sao-bento/igreja-de-sao-bento.htm>. Acessado em:

 

Galeria de imagens (clique na imagem para ampliar)

Créditos: Jorge Eduardo Rubies

Fachada

Estátua em bronze de S. Bento

 na entrada da Igreja

Fachada lateral - R. Florêncio de Abreu
 

Leão XIII - protetor

Domingos Machado - Instaurador

Fernão Paes Leme - Fundador

Fachada lateral - Anhangabaú
 

Ornamentos em terracota

Medalhão em terracota

Portas
   
 
Interior da Igreja

Vista da nave central

Esculturas

Cristo Crucificado do final do séc.

XVIII. Autor: José Pereira Mutas

Adão e Eva da Trave da Capela do

Altar-Mor, durante a restauração

Pietá

Pinturas
 
 

Ícones do altar da Capela

do Colégio

 
Vitrais

Vitral da Igreja

Vitral da Capela do Colégio

Pisos

Mosaico danificado pelas obras do

metrô, no início da década de 70

Órgão
Outros

Capitel em estilo românico

Grade de capela da nave lateral

 

Vista aérea do claustro

 

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