ART DÉCO EM SÃO PAULO
O que é o art déco
Os anos 20 e 30 assistiram ao florescimento de um movimento artístico e arquitetônico que se tornou um "cult" entre os entusiastas das artes. Considerado ora o canto do cisne da arte eclética, ora o ponto de partida do modernismo, o art déco é um estilo de transição. Lançado oficialmente em 1925 na Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas de Paris (daí o nome), teve vida efêmera. Mesmo vencido e substituído pela arquitetura modernista, continua amado e admirado - há até pesquisas de opinião indicando que é o estilo preferido pelo povo. E, hoje em dia, a arquitetura pós-moderna retoma várias de suas características.
Definição
Segundo o Guia da Arquitetura Art Déco no Rio de Janeiro (Conde, Luiz Paulo e Almada, Mauro. Prefeitura do Rio de Janeiro, 2000), uma das três únicas obras dedicadas ao assunto já publicadas no Brasil, o estilo pode ser definido através das seguintes palavras-chave:
O Art Déco se define como Arte, enquanto o Movimento Moderno pretendia ser mais que isso: um movimento cultural global que envolvia aspectos sociais, tecnológicos, econômicos e "também" artísticos;
O Art Déco se define como Decorativo, enquanto o Movimento Moderno se coloca indiferente, contrário ou até mesmo hostil (decoração é delito", Loos) à idéia de decoração;
O Art Déco se define como estilo Internacional, ao lado do Movimento Moderno e contra as correntes, numerosas à época, que propugnavam por expressões artísticas "autenticamente nacionais". O intercâmbio, no Brasil, do Art Déco com elementos oriundos da arte marajoara pode ser interpretado como uma "aclimatação do estilo ao debate cultural que então se travava no país, acomodação esta também observável em certas correntes do Movimento Moderno que buscam um diálogo com a cultura nacional;
O Art Déco se define como estilo Industrial, isto é, associado à sociedade industrial nascente, implícitas aí todas as suas conseqüências, sobretudo tecnológicas.
Por fim, o Art Déco se define como Moderno lato sensu, isto é, associa sua imagem a tudo o que, então, poder-se-ia definir como tal: arranha-céus, automóveis, aviões, cinema rádio, música popular, moda/vestuário e emancipação da mulher. Propõe-se, portanto, como estilo intrinsecamente cosmopolita.
Características
Composição de matriz clássica : simétrica/axial, com acesso centralizado ou valorizando a esquina (no plano horizontal); e tripartida em base, corpo e coroamento escalonado (plano vertical);
Tratamento volumétrico das partes constituintes e superfícies, à maneira moderna, com : predominância de cheios sobre vazios; articulação de volumes geometrizados e simplificados (varandas semi-embutidas) ou sucessão de superfícies curvas (aerodinamismo); Linguagem formal tendente à abstração (contenção expressiva dos ornamentos decorativos, quase sempre em alto e baixo-relevo); e composição com linhas e planos, verticais e horizontais, fortemente definidos e contrastados;
Articulação entre Arquitetura, Interiores e Design (mobiliário, luminárias e serralheria artística). Valorização dos acessos e portarias;
Estruturas em concreto armado, embasamentos revestidos e, granito, mármores e materiais nobres, revestimentos altos em pó-de-pedra (mica) e janelas tipo "Copacabana" ( persianas de enrolar/basculantes ) em madeira ou ferro; mescla de técnicas construtivas industriais/modernas e decorativas artesanais/tradicionais;
Plantas flexíveis, com acesso por hall, circulação ou galeria (espaço interconector) e compartimentos de uso intercambiável (quartos/salas);
Iluminação feérica e cenográfica, intenção esta manifesta
desde as perspectivas que acompanham os projetos (talvez uma influência
cinematográfica).
A Variante Marajoara
Embora auto definindo-se como um estilo internacional, o Art Déco ao ser
introduzido no Brasil, assim como o modernismo, aqui encontrou uma forte
corrente intelectual nacionalista, que buscava desde o final do século XIX uma
expressão própria para a cultura brasileira.
A influência indígena no Brasil foi introduzida por Edgar Vianna, por inspiração
nas cerâmicas marajoaras trazidas do Pará por expedições exploratórias.
(Extraído do Guia da Arquitetura Art Déco no Rio de Janeiro - Luiz Paulo Conde e Mauro Almada; Prefeitura do Rio de Janeiro, 2000)
Art déco em São Paulo
São Paulo dispõe de um rico acervo decô dos anos 30 até o final dos anos 40, quando o estilo é definitivamente substituído pelo modernismo. Ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, que assistiram a uma paralisação da construção civil durante 15 anos, provocada primeiro pela Depressão e depois pela Guerra, em São Paulo a recuperação econômica foi mais célere, permitindo um maior florescimento deste estilo, que coexistiu com os últimos exemplares da arte eclética e os primeiros prédios em estilo moderno. Os últimos exemplos de arquitetura déco em São Paulo datam do final dos anos 40, em geral obras que haviam sido paralisadas durante a guerra. No fim da década, o movimento modernista se consolida definitivamente e varre do mapa o art déco e o ecletismo.
(clique nas imagens para ampliar)
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Foto 1
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Os imóveis art déco se concentram na região do Centro Novo, Santa Ifigênia e Avenida São João. Na Avenida São João, esquina com Rua Ana Cintra, há um elegante prédio de apartamentos (foto 1). Infelizmente, o revestimento não é mais o original - os prédios déco de São Paulo eram quase todos pintados com tinta misturada a pó de mica, o que lhes conferia um feérico efeito cintilante. Contudo, a recuperação desse revestimento é obra extremamente artesanal e dispendiosa, e os donos dos imóveis preferem pintá-los com tinta comum por razões de economia. |
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Na Praça Marechal Deodoro, ainda pode se ver um dos
poucos prédios decô com o revestimento original (foto 2), ainda que bem
escurecido com o tempo. É outro belo exemplar dêco de esquina, com
interessantes ornamentos de inspiração provavelmente indígena. |
Foto 2 |
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Continuando pela Avenida São João, encontramos um pequeno edifício residencial no meio da quadra entre a Rua Ana Cintra e Av. Duque de Caxias (foto 3). Mais adiante, na esquina com a Rua Aurora, um exemplar da vertente aerodinâmica desse estilo - que privilegiava as formas geométricas em detrimento da ornamentação, com curvas e janelas em forma de escotilha. A clara predominância de cheios sobre vazios lhe dá um aspecto maciço e pesado (foto 4). |
Foto 3 Foto 4 |
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Fotos 5 e 6 |
Bem no início da Avenida São João - na Praça Antonio Prado, temos o prédio do Banco de São Paulo (atual Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer), de 1938, certamente a mais refinada e ricamente ornamentada obra art déco da cidade. O prédio, de autoria de Álvaro Botelho, tem 16 andares e fachada tanto para a praça como para a Rua São Bento. Quase em frente, na Rua João Brícola, o Edifício do Banco do Estado.
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Na Rua Líbero Badaró outro arranha-céu déco - o prédio Saldanha Marinho, desenhado por Elisiário Bahiana (fotos 7 e 8). Com uma história atribulada - originalmente, destinado a ser sede do Automóvel Club, com um projeto eclético de Christiano das Neves, quando o esqueleto do prédio já havia sido concluído mudou de arquiteto e de dono - a Companhia Paulista das Estradas de Ferro, que fez dele a sua sede. O prédio foi recentemente restaurado para abrigar a Secretaria de Segurança Pública. |
Foto 7 Foto 8 |
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Na Av. Cásper Líbero, o edifício J. Moreira, "uma das maiores massas arquitetônicas da cidade no estilo Art déco", segundo a obra "Bens Culturais Arquitetônicos no Município e na Região Metropolitana de São Paulo" - a bíblia da arquitetura em São Paulo. Um belo e marcante edifício de esquina, com esmerada execução. |
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Um dos mais interessantes prédios decô em São Paulo é o edifício Ouro Para o Bem de São Paulo, na rua Álvares Penteado, com uma história curiosa. Em 1932 as mulheres paulistas doaram suas alianças de casamento para o caixa militar da revolução constitucionalista. Derrotada esta, o ouro angariado foi doado à Santa Casa, que o utilizou para construir o prédio - com o formato da bandeira paulista, onde cada andar corresponde a uma das 13 listras. |
Jorge Eduardo Rubies
(Continua proximamente)
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