Correios e Telégrafos

 

Avenida Prestes Maia s/nº; Avenida São João s/nº; Praça Pedro Lessa nº 31; Rua Abelardo Pinto s/nº

Número de pavimentos: quatro mais porão

Ano de conclusão: 1922

Uso atual: desocupado/em obras

Arquitetos: Domiziano Rossi e Felisberto Ranzini

Proteção: Z8 200-016

Correios e Telégrafos - foto - Jorge Eduardo Rubies


Segundo Alfredo Egídio Martins (1), o correio na Capitania de São Paulo foi criado em 28 de julho de 1798 pelo Capitão-General Antonio Manuel de Melo Castro e Mendonça, o Pilatos, sendo que as primeiras linhas ligavam a capital a Santos e ao Rio de Janeiro. Em 13 de outubro de 1800, o mesmo Capitão-General estabeleceu novas linhas entre a capital e Itu, Paranaguá e São Sebastião. O primeiro administrador do correio foi o português Manuel Joaquim de Ornelas.

A repartição do Correio Geral se localizava na ala lateral do Convento do Colégio, mudando-se em 1877 para um sobrado na esquina das ruas do Carmo  (atual Roberto Simonsen) e da Fundição (atual Floriano Peixoto). Depois mudou-se para um prédio no Largo do Tesouro, esquina com Pátio do Colégio, pertencente ao Conde de Prates. Finalmente, durante a gestão de Clodomiro Pereira da Silva na direção-geral dos Correios, sendo Ministro da Viação e Obras Públicas (os Correios se subordinavam a esse ministério) José Pires do Rio, a empresa resolveu construir seu primeiro prédio próprio em São Paulo, em meio a um amplo programa de expansão. Para tanto, foram destinados terrenos da União situados entre a recém-alargada avenida São João e a rua do Seminário, onde antes se situavam o Mercadinho da r. São João e o Seminário das Educandas, primeira instituição de ensino para moças em São Paulo. Do projeto e execução da obra foi encarregado o Escritório Técnico Ramos de Azevedo.

Os arquitetos

Ao contrário do que geralmente se pensa, a maior parte dos prédios atribuídos a Ramos de Azevedo eram na verdade projetados por seus auxiliares. Ramos de Azevedo era na verdade o grande empreiteiro daquele tempo, recebendo as comissões das grandes obras públicas no período da República Velha.

Domiziano RossiA autoria do prédio dos Correios é portanto de seu sócio Domiziano Rossi e provavelmente também de Felisberto Ranzini, ambos italianos. Domiziano Rossi (foto à direita) nasceu em Gênova em 13 de maio de 1865 e  diplomou-se em arquitetura pela Universidade de Gênova. Após imigrar para o Brasil, foi contratado como professor da Escola Politécnica em 1894, tendo lecionado as disciplinas de Desenho a Mão Livre, Desenho Geométrico e Composição Decorativa, que ministrava na própria sede do Escritório Ramos de Azevendo e não no prédio da Póli. Também foi professor de desenho do Liceu de Artes e Ofícios, instituição intimamente ligada a Ramos de Azevedo, onde também dava aulas de desenho.

A ele são creditados os principais projetos do Escritório Técnico Ramos de Azevedo entre o início da década de 1900 e o seu falecimento, em 24 de outubro de 1920: o Teatro Municipal (em parceria com Claudio Rossi), o Palácio das Indústrias, o Colégio Sion, o pavilhão paulista na Exposição do Rio de Janeiro de 1908, entre vários outros.

Conhecia o livro de Vignola (a bíblia da arquitetura italiana) de memória, e sua competência foi reconhecida por Joseph Bouvard, o urbanista francês que elaborou o plano de remodelação da cidade de São Paulo no início do século XX. Bouvard chegou a propor que Rossi fosse trabalhar com ele na França, o que forçou Ramos de Azevedo a lhe propor sociedade em seu escritório, a fim de mantê-lo no Brasil.

Seu temperamento sarcástico e explosivo tornou-se folclórico entre colegas e trabalho e alunos, dando origem a várias anedotas, como este episódio, que teria ocorrido em uma de suas aulas: "Uma vez, o professor Rossi, além de artista, cultor apaixonado do Renascimento, não se poude conter ao receber do Fairbanks um desenho da ordem coríntia em que o capitel parecia um cacho de bananas. Rasgou-o em quatro pedaços e disse ao desolado Fairbanks com o seu sotaque ítalo-paulista: O sr. gastô a tinta, gastô papel, gastô as ferramenta, mas no fez nada. Leva bra casa bra squentá u café".(2) Até Felisberto Ranzini, seu sucessor como projetista principal do Escritório, confessou que a morte de Rossi foi um alívio geral.(3)

Desenho da fachada da av. São João

Felisberto Ranzino. Arquivo Renzo RanziniFelisberto Ranzini (foto) nasceu em San Benedetto Po em 18 de agosto de 1881, e faleceu em São Paulo, em 22 de agosto de 1976, aos 95 anos de idade portanto. Veio criança para São Paulo, e estudou no Liceu Coração de Jesus e no Liceu de Artes e Ofícios, onde também se tornou professor. Ingressou no Escritório Ramos de Azevedo a convite de Domiziano Rossi, sucedendo-o como projetista-chefe após a morte deste em 1920, e também o sucedeu na cadeira de Composição Decorativa da Escola Politécnica. Foi professor da Póli por trinta anos, e trabalhou no Escritório Ramos de Azevedo por mais de quarenta anos.

Após 1920 foi o responsável por todos os grandes projetos do Escritório Ramos de Azevedo: o Mercado Municipal, o Palácio da Justiça e o esplêndido prédio do Clube Comercial no Anhangabaú (demolido) são de sua autoria. Era excelente desenhista e aquarelista, e além das atividades como professor e arquiteto, dedicava-se às artes plásticas, tendo participado de exposições e recebido menção honrosa no 9º Salão Paulista de Belas Artes (4).

O edifício

A pedra inaugural do edifício dos Correios e Telégrafos foi colocada em outubro de 1920, e sua conclusão se deu no prazo recorde  de dois anos - foi inaugurado em 20 de outubro de 1922. Embora sob um mesmo edifício, as repartições dos correios e dos telégrafos ocupavam duas alas sem ligação entre si - a primeira no Anhangabaú, e a segunda na av. São João. A fachada obedece a divisão clássica de embasamento, corpo e coroamento. Toda serralheria foi executada pelo Liceu de Artes e Ofícios.

O prédio dos Correios no dia de sua inauguração.

Acervo Fau-USP. Clique para ampliar

Assim descreve o edifício Margareth da Silva Pereira no livro "Os correios e telégrafos no Brasil; um patrimônio histórico e arquitetônico":

"No corpo central, as janelas do segundo e terceiro pavimentos eram enquadradas por pilastras monumentais cortadas pela linha horizontal do entablamento. Nos corpos laterais, os pavimentos eram claramente individualizados e marcados por fiadas de janelas estreitas, com tratamento diferenciado nas vergas e sobrevergas em cada andar. No ângulo da praça e da avenida São João, o corpo lateral recebeu um tratamento chanfrado, e a divisão tripartida e o ritmo foram repetidos na avenida, garantindo a continuidade visual do conjunto. Nessa fachada, devido ao desnível do terreno, o embasamento era menor e apenas uma porta garantia o acesso aos serviços telegráficos. O último pavimento era homogeneamente tratado com janelas de arco pleno, que se diferenciavam apenas pela maior ou menor abertura. Uma proeminente cornija definia o fechamento do conjunto, coroado por frontões decorados e balaústres, enfatizando o eixo central de cada fachada, delimitando e ornamentando os volumes ligeiramente salientes dos corpos laterais. Ladeando o relógio, que coroava a composição da fachada principal, duas figuras de "vulto" completavam o conjunto, funcionando muito mais como complemento da decoração do que alegorias propriamente ditas." (5)

A obra "Bens culturais arquitetônicos do Município e na Região Metropolitana de São Paulo", a bíblia do patrimônio arquitetônico da cidade, sintetiza dessa forma o significado do prédio dos Correios: trata-se de um "elemento semântico da maior importância na leitura da cidade."(6)  A arquitetura do prédio é elegante e sóbria, sem excessos, mas também sem chegar a ser excepcional. O prédio se destaca antes de tudo por sua localização privilegiada e por sua monumentalidade, sem ser tão espetacular quanto outros prédios no estilo Beaux Arts, o prédio da Light, o da Sorocabana ou o Mercado Municipal, seus contemporâneos. É notável a semelhança tanto estilística quanto volumétrica com o prédio dos Correios de João Pessoa, projetado na mesma época por outro arquiteto.

O prédio dos Correios compõe, juntamente com o edifício Oscar Rodrigues, o Hotel Municipal e o prédio dos Hotéis Central e Britânia um dos mais significativos conjuntos da arquitetura do início do século XX em São Paulo, que chegou até os nossos dias milagrosamente preservado.

O Centro Cultural dos Correios

Nos anos 70, assim como no início dos anos 20, tanto o Brasil como os Correios passavam por outro ciclo de desenvolvimento e expansão. Novo edifício da ECT foi projetado em São Paulo, ocupando uma enorme área de 30.000 metros quadrados na Vila Leopoldina, que concentraria o setor de triagem e as atividades administrativas da empresa - essas últimas numa torre de 28 andares, que domina o panorama da região próxima à confluência dos rios Pinheiros e Tietê. Dessa vez, o estilo adotado foi o modernista, o material utilizado foi o concreto aparente e o objetivo era atender à escala industrial da demanda que a empresa passara a atender.

Surgiu então a questão sobre qual destinação dar ao prédio do Anhangabaú, que continuou a funcionar como agência central dos Correios. No início dos anos 90, acentuou-se a tendência de transformar imóveis históricos em centros culturais, e foi o que ocorreu no Rio de Janeiro com a Casa França-Brasil, o Banco do Brasil e a própria sede carioca dos Correios. Tal tendência também se verificou em São Paulo, e em 1997 a ECT decidiu realizar um concurso público destinado a escolher o melhor projeto de adaptação do prédio. Cerca de 173 escritórios de arquitetura participaram,(7) e o concurso foi vencido por uma jovem equipe de arquitetos recém-formados - o escritório Una Arquitetos.

Entrevistei Fábio Rago Valentim, sócio do escritório e professor da Escola da Cidade, que me explicou as idéias principais que nortearam a concepção do Centro Cultural dos Correios. A noção de permeabilidade  é um dos traços principais do projeto - a equipe tinha em mente um prédio aberto para cidade, convidativo para quem está do lado de fora. Para tanto, previram-se entradas não só pela Avenida São João e pelo Anhangabaú (ligando pela primeira vez os setores dos Correios e dos Telégrafos) mas também pela rua Abelardo Pinto, o antigo Beco do Piolim (o famoso palhaço Piolim, do circo do mesmo nome que ficava localizado exatamente neste beco). O prédio torna-se assim, uma galeria de circulação de pedestres, que poderão, vindos do Anhangabaú, acessar o Largo do Paissandu através do Beco do Piolim. Os desníveis existentes entre as três entradas serão vencidos através de escadas rolantes.

 

Vista do prédio dos Correios a partir do terraço do Martinelli (esquerda), e maquete do futuro Centro Cultural dos Correios, da Una Arquitetos. Fotos de Jorge Eduardo Rubies. Clique para ampliar

Outra característica marcante do projeto é a plaza a ser construída como um prolongamento do Beco do Piolim, nos fundos do prédio dos correios, que tem tudo para vir a ser um dos mais movimentados pontos de encontro do centro.

O ambicioso programa do Centro Cultural dos Correios prevê restaurante, cafeteria, auditório, sala de exposições, centro de convenções, livraria, biblioteca, museu, loja filatélica, teatro (cujo projeto foi premiado na 9ª quadrienal de Praga) e dois cinemas com 250 lugares cada, além de manter a maior agência dos correios em São Paulo.  O teatro e os cinemas serão construídos em um prédio anexo na praça do Piolim, nos fundos do edifício principal, que também abrigará o ar condicionado central e os equipamentos mais pesados. A fachada será preservada e restaurada, bem como as características originais remanescentes do interior.

O processo de implantação do Centro Cultural dos Correios tem sido incrivelmente tumultuado. O prazo original para conclusão das obras era agosto de 98, mas no entanto, praticamente nada se fez até 2005. Mal começaram e as obras foram paralisadas durante vários anos, o que não impediu o então Presidente Fernando Henrique Cardoso de "inaugurar" o Centro Cultural em novembro de 2002.

Assim, um dos patrimônios arquitetônicos mais importantes da cidade ficou durante vários anos abandonado e cercado por tapumes. Finalmente, no final de 2004, as obras foram retomadas por uma nova construtora (Construtora Atlanta, com sede em Goiânia), que ficou encarregada de concluir apenas a primeira fase do projeto - a agência postal. Incompreensivelmente, o escritório Una Arquitetos sequer foi contratado para acompanhar as obras. Quanto aos espaços culturais, sua inauguração ficou para as calendas gregas.

O prédio dos Correios é um símbolo da cidade de São Paulo e da ECT. E a ECT é um símbolo centenário de eficiência e bons serviços para o Brasil. A retomada das obras dos Correios servirá como indutor da recuperação de uma das áreas mais interessantes da cidade de São Paulo, e para a ECT, irá reafirmar o seu prestígio, que é  muito maior que crises passageiras como a atual provocada pelas denúncias de corrupção na antiga diretoria. A imensa maioria de funcionários dedicados fazem da ECT uma das empresas mais admiradas pela população brasileira, e com certeza a reinauguração do prédio dos Correios será mais uma mostra do esforço e grandeza desses funcionários e da cidade de São Paulo.

Agradecimentos: Fábio Rago Valentim (Una Arquitetos)

Notas

1 - MARTINS, Alfredo Egídio. São Paulo Antigo, 1554-1910. São Paulo: Paz e Terra, 2003 pg. 185.

2 - AZEVEDO, Francisco de Salles Vicente de "Palestra no Grêmio Politécnico", in "Revista Politécnica nº 84, fevereiro de 1928. Apud LEMOS, Carlos A. C. Ramos de Azevedo e seu Escritório. São Paulo: Pini, 1993, pg. 62.

3 - LEMOS, op. cit. pg. 62

4 - FICHER, Sylvia. Os arquitetos da Póli: ensino e profissão em São Paulo. São Paulo: Fapesp/ Editora da Universidade de São Paulo, 2005, pgs. 203-204.

5 - PEREIRA, Margareth da Silva. Os Correios e Telégrafos no Brasil; um patrimônio histórico e arquitetônico. São Paulo: MSP/Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, 1999, pg. 92.

6 - BRAGA, Rosa Maria Faria (org.) Bens culturais arquitetônicos do Município e na Região Metropolitana de São Paulo. São Paulo: Emplasa, 1984, pg. 382.

7 - "O Projeto para a Reciclagem do Edifício da Agência Central dos Correios em São Paulo". Disponível em http://www.idea.org.br/programas/23.htm

 

Plantas e desenhos computadorizados do futuro Centro Cultural dos correios

- do escritório Una Arquitetos

Clique nas imagens para ampliar:

 

Planta do 1º pavimento

com a praça Piolim aos fundos

Praça do Piolim -

perspectiva

Perspectiva eletrônica do

hall de entrada do Anhangabaú

 

Saguão central - perspectiva

por computador

Interior do teatro

Jorge Eduardo Rubies

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