Casa do Butantã
Praça Monteiro Lobato s/n
Número de pavimentos: um
Ano de conclusão: desconhecido
Uso atual: espaço museológico
Proteção: CONDEPHAAT

Casa do Butantã - foto - Jorge Eduardo Rubies
Quase nada restou da São
Paulo colonial. Das centenas de sítios e imóveis rurais que havia na região no
período colonial, sobreviveram até os nossos dias apenas os seguintes: Sítio Butantã, Casa do
Caxingui, Casa do Grito no Ipiranga, Sítio Santa Luzia, Sítio Morrinhos, Sítio
Ressaca, Sítio Tatuapé, Sítio Capão, Casa da Fazenda do Morumbi, além das ruínas
dos sítios Itaim e Mirim. Recentemente, foi descoberta mais uma casa rural na
região do município de São Paulo (Sítio Periquito). Não conheço o estado de uma
delas (Sítio Piraquara), que parece estar em ruínas. É possível que alguma coisa
reste para ser redescoberta no extremo sul e no extremo leste da cidade.
Das igrejas e capelas coloniais, sobreviveram apenas a Capela de São Miguel Paulista (a mais antiga, de 1622), a Capela Biacica, a Capela dos Aflitos, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Penha, a Igreja de São Gonçalo, o conjunto formado pelas Igrejas de São Francisco e da Ordem Terceira de São Francisco, o Mosteiro da Luz e as Igrejas da Boa Morte e da Ordem Terceira do Carmo, e Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Penha, além do interior da Igreja de Santo Antônio (a fachada foi bastante modificada e perdeu as características coloniais).
Sobreviveu também um monumento (o obelisco da Memória), e nenhuma residência urbana colonial (acredito que o imóvel da rua da Glória nº 95 possa ser um último remanescente das casas urbanas do período em São Paulo e que haja alguma coisa a ser identificada nas ruas Tabatingüera e Lavapés).
Foi isso tudo o que restou da São Paulo colonial; não chegam a vinte os remanescentes daquela que na época da Independência o viajante francês Saint-Hilaire chamou de a mais bonita do Brasil, embora estivesse longe de se tornar a maior e mais rica. Mesmo assim, ainda nos anos 70 e 80, pelo menos meia dúzia de construções coloniais estavam sendo demolidas ou arruinados na cidade, inclusive os sítios Itaim e Mirim acima citados, às vistas das autoridades, dos órgãos de preservação e da sociedade em geral.
O Sítio Butantã é uma relíquia da antigüidade paulista, e não apenas isso. Embora pareça tosca, rústica e simplória à primeira vista, essa casa colonial nos conta, através de suas técnicas construtivas, uma história milenar, muitos séculos anterior à sua própria existência, que provavelmente ocorreu na primeira metade do século XVIII (ainda não foram realizados estudos que estabeleçam esta data de maneira conclusiva). E que começa em uma região muito distante.
A terra crua foi e é utilizada como material construtivo em todas as regiões e quase todas as civilizações. O adobe (tijolos de barro cru), a taipa de pilão e a taipa de mão são as principais técnicas construtivas em terra crua. A taipa de pilão foi dominada com maestria e disseminada pelos árabes e berberes, que ao conquistarem a Península Ibérica em 711 popularizaram a técnica e inclusive nos deram a palavra (taipa, tapia em castelhano, originam-se do árabe tabiya). E os espanhóis e portugueses levaram a técnica da arquitetura em taipa para as Américas, de forma que durante o período colonial as edificações em taipa se espalharam do México à Argentina. Na cidade de São Paulo e arredores a taipa de pilão e a taipa de mão foram praticamente os únicos métodos construtivos por cerca de 300 anos, até meados do século XIX, quando se passou a construir com tijolos.
Até hoje a taipa é utilizada na arquitetura popular e rural da América Latina, e vem sendo revalorizada como técnica construtiva ecológica, resistente, de fácil execução e manutenção, a prova de fogo e que garante um excelente conforto térmico, entre outras qualidades. Essas qualidades que lhe garantiram um lugar especial na arquitetura árabe-berbere, ibérica e latino-americana.
Na taipa de pilão, o barro é peneirado para separar as impurezas, umedecido e depois apiloado dentro das fôrmas das paredes, feitas de madeira e denominadas taipais. Por fim é deixado para secar. Para compensar a fragilidade do barro cru, as paredes de taipa de pilão apresentam uma grande espessura, que chega a um metro e meio em alguns casos. E disso decorre outra característica da arquitetura em taipa, que são as poucas aberturas - portas e janelas - o que na linguagem arquitetônica se chama predomínio dos cheios sobre os vazios. A taipa de pilão era executada por artífices especializados - os taipeiros - pois embora à primeira vista pareça uma técnica rudimentar, é necessário experiência e conhecimento para escolher o barro de melhor qualidade, armar os taipais, etc.
Contudo, a taipa, que se adaptou extremamente bem ao clima seco dos desertos norte-africanos, ao clima mediterrâneo do Algarve e da Andaluzia, apresentava um problema nas regiões tropicais da América Latina: embora a taipa seja resistente ao fogo, a exposição a outro elemento, a água obviamente dissolve o barro. Esse problema foi solucionado por meio da adoção outra característica da arquitetura colonial latino-americana: os largos beirais do telhado que se projetavam muito além das paredes, protegendo não somente elas da chuva e especialmente dos respingos que corroíam as suas bases, mas também os pedestres, já que esses beirais formavam verdadeiras marquises sob as quais as pessoas caminhavam durante as chuvas sem se molhar. Beirais esses sustentados por hastes horizontais de madeira denominadas cachorros (o beiral com cachorros é denominado beiral de cachorrada). Assim protegidas pelos beirais as construções em taipa demonstraram possuir grande durabilidade, atravessando os séculos.
É por isso que pelas cidades e casas rurais antigas das cidades latino-americanas a aparência é muito semelhante. Semelhança que, no caso de São Paulo, é ainda maior com as casas rurais da América Espanhola, pela grande presença de espanhóis na Capitania de São Vicente e pelo intenso intercâmbio com o Paraguai, especialmente durante a União Ibérica, conforme foi cabalmente demonstrado pela historiadora da arte Aracy Amaral em seu livro "A Hispanidade em São Paulo".
Quanto à ornamentação da casa colonial, variava em função da idade da construção, as mais antigas tendendo a um maior despojamento, e do nível econômico da região. Sendo São Paulo uma região pouco desenvolvida durante o período colonial, isso se reflete na austeridade das casas, cuja ornamentação, quando havia, se resumia aos elementos de marcenaria: os cachorros dos beirais talhados às vezes com motivos zoomórficos, como golfinhos, os batentes das portas e janelas, e os pilares de sustentação do telhado do alpendre. A madeira utilizada na construção era geralmente a canela-preta, extremamente resistente, que quando começou a escassear foi substituída por outras de pior qualidade - por causa disso curiosamente o madeiramento dos prédios mais antigos do período colonial se preservou em muito melhor estado do que os de épocas posteriores. A pedra era muito pouco utilizada em São Paulo, e as janelas eram invariavelmente de madeira - era praticamente inviável transportar vidros (que tinham que ser importados) pelas precárias estradas da Serra do Mar anteriores à calçada do Lorena, construída no final do século XVIII. O vidro só começou a se difundir em São Paulo a partir de princípios do século XIX. As paredes eram caiadas não com cal, inexistente então no Planalto, mas com tabatinga, uma areia muito fina e branca extraída dos rios como o Tamanduateí, onde havia um porto de areia no final da rua que leva até hoje seu nome (Tabatingüera).
A Casa do Butantã é totalmente desprovida de ornamentação, salvo pelos cachorros talhados dos ângulos do beiral. Seu telhado é de quatro águas e constitui o próprio teto (a chamada telha vã), já que não tem forro . Possui dois alpendres em lados opostos, sendo que o voltado para o rio Pinheiros é guarnecido por um parapeito ao lado de cada um dos dois pilares de madeira. Possui três janelas em cada uma das paredes laterais, uma de cada lado do alpendre frontal e uma apenas à esquerda do alpendre dos fundos.
E como viviam os antigos moradores da Casa do Butantã? A arqueologia está começando a desvendar o modo de vida dos paulistas dos séculos XVII e XVIII, do qual muitos pontos ainda permanecem obscuros. Sabe-se que a influência indígena nos costumes desses paulistas era enorme e provavelmente dominante, a começar pela própria língua que falavam - que não era o português mas sim a língua geral paulista, derivada do tupi, e que foi o idioma corrente no Planalto Paulista até meados do século XVIII. Os hábitos dos paulistas do período colonial foram de tal maneira influenciados pelos índios que se chega a perguntar até que ponto casas como a do Butantã não seriam "ocas de taipa de pilão"(1). E, ainda no que se refere aos costumes, a influência moura mais uma vez se faz presente, na segregação das mulheres no interior das residências e mesmo no vestuário, com as mantilhas cobrindo o rosto nas raras vezes em que saíam das casas.
A São Paulo do século XVIII pelo jeito devia ser uma cidade curiosíssima: casas de arquitetura árabe, com uma população de língua e marcados rasgos indígenas, e onde as mulheres se vestiam à moda muçulmana.
Também há muito o que se descobrir a respeito da Casa do Butantã. Não se sabe com certeza quem a construiu, nem quando. Sabe-se que foi algum maioral paulista pois, apesar de sua aparente simplicidade e rusticidade, era o que podia se fazer de melhor na espartana São Paulo colonial. Quanto à época da construção, as muitas hipóteses apontam desde o início do século XVII até o início do século XIX. As terras que abrangem o sítio e todo o bairro do Butantã faziam parte das gigantescas sesmarias de Afonso Sardinha, o Velho, que em 1615, legou suas terras aos jesuítas, que a dividiram em 19 sítios, arrendados a particulares. A região, vizinha ao aldeamento de Pinheiros, parece ter adquirido alguma importância com as tropas de mulas vindas de Sorocaba, que por ali pastavam antes de seguir viagem.
A primeira documentação relativa à Casa do Butantã no entanto só aparece em 1822, de acordo com a historiadora Márua R. Pacce, no seu artigo "A propósito da Casa do Bandeirante".(2) A história da Casa Butantã possui a partir daí a seguinte seqüência cronológica, ainda segundo o mesmo artigo:(3)
• 1822 - Doação do imóvel, situado nas proximidades do Córrego Coruja, por Antônio Correa de Moraes a seus afilhados Generoso e Francisco, filhos de Joaquim Aranha e Maria de Tal, sendo a posse exercida em nome daqueles por Joaquim Aranha, já que eram ainda menores.
• 9 de setembro de 1843 - venda do imóvel por Generoso e Francisco a Joaquim José Mariano de Medeiros, sendo que após a sua morte o imóvel continuou a ser ocupado por sua esposa Albina da Luz, e seu filho, Marcelino.
• 10 de novembro de 1853 - Albina e Marcelino vendem o imóvel a Vicente Xavier de Medeiros
• 9 de novembro de 1864 - Vicente Xavier de Medeiros e sua esposa Cândia Maria de Jesus vendem o imóvel ao Comendador Luiz Antonio de Souza Barros. Na escritura aparece a denominação "Sítio do Rio Abaixo dos Pinheiros"
• 10 de março de 1865 - Luiz Antonio de Souza Barros e Felicíssima de Campos Barros vendem o sítio a Eugênio Vieira de Medeiros pela quantia de 3000 Réis.
• 3 de julho de 1911 - Rita Maria de Medeiros, viúva de Eugênio, e seus filhos vendem o imóvel à Companhia Edificadora de Vila América, por 180 contos de réis. A área total do terreno é de 2.952.900 m² (122 alqueires).
• 7 de novembro de de 1911 - A Cia. Edificadora da Vila América vende o terreno a Edouard Fontaine de Laveleye.
• 22 de janeiro de 1912 - Edouard de Laveleye vende o imóvel à Cia. City a qual anos mais tarde loteou o terreno, que se tornou o bairro de City Butantã. O quarteirão em que se encontra a Casa do Butantã virou uma praça e foi doado à Municipalidade em 20 de julho de 1944.
A Casa do Butantã situava-se originalmente na margem direita do rio Pinheiros. Com a retificação do rio, nos anos 40, "mudou" para a margem esquerda.
Em 1954, o último morador da casa, Antonio Vieira de Medeiros, filho de Eugênio e de Rita de Medeiros, foi entrevistado pela Comissão do IV Centenário. Seu depoimento foi transcrito pela historiadora Márua Pacce em seu artigo e reproduzimos a seguir, por ser interessantíssimo: (4)
TRANSCRIÇÃO DO DEPOIMENTO DE ANTONIO VIEIRA DE MEDEIROS, ANTIGO MORADOR DA "CASA DO BANDEIRANTE", colhido pela Comissão do IV Centenário, em 31 de maio de 1954
Notícia
O informante, atualmente com 82 anos de idade, nasceu na casa velha do Butantã, sendo filho do antigo proprietário, Eugênio Vieira de Medeiros, pessoa que foi muito conhecida em todo o bairro de Pinheiros, aonde existe uma rua com seu nome.
Diz o informante que o seu pai adquirira a casa e o sítio de um seu tio-avô, Vicente de Medeiros (nota: informação incorreta, conforme a cronologia acima).
O nome que davam à propriedade era o de "Sítio do Rio Abaixo", ou "Sítio Velho do Butantan" estando sob a invocação da Santa Cruz, em cujo louvor se realizavam anualmente, imponentes festas. Junto à casa, do lado direito de quem entra, havia uma cruz de madeira, antiquíssima, tendo um metro de altura, aproximadamente. Esta cruz foi retirada pelo informante, uando a casa foi vendida, assim como imagens antigas. Tanto a cruz, como também as imagens, estão em poder do informante.
Segundo contava o seu pai, a casa "era muito antiga e tinha mais de 300 anos e, pertencera aos jesuítas, que a perderam quando houve a sua expulsão.
Cinco anos antes de ser promulgada a "Lei Áurea" todos os escravos do sítio foram libertados por seu pai, que sempre pugnara em prol do fim do cativeiro.
ALGUNS DADOS SOBRE A CASA
Lembra-se o informante que os quartos de dormir eram todos forrados com tábuas largas, de canela preta. Essas tábuas foram retiradas por pessoas que moravam perto, quando a casa foi desocupada.
As janelas dos quartos de dormir, somente essas, eram gradeadasa com grades de madeira colocadas em quina, o que tornavam aqueles cômodos excelentes "prisões" para as crianças da casa, quando essas praticavam peraltices.
Havia dois alpendres: um na frente, outro nos fundos. O da frente possuía uma mureta de um metro de altura, mais ou menos. Mais tarde esse alpendre foi fechado.
EXTERNAMENTE
Diz o Sr. Antonio de Medeiros que havia em toda a volta da casa, um muro de taipa, cercando-a. Nesse muro um portão largo, de madeira dava acesso aos visitantes. Contava-se que esses muros eram muito antigos tanto quanto a casa e tinha sido erguido para defendê-la dos índios que infestavam a redondeza. Esses muros cercavam todo o terreno próximo da casa, menos o lado do rio Pinheiros.
ATIVIDADES
É do tempo do informante o funcionamento de uma moenda de cana com 3 cilindros, toda feita de madeira e puxada a boi. Essa moenda era muito antiga e situava-se perto da casa. Mais tarde, em vista de não estar sendo utilizada, foi vendida para um fazendeiro de Carapicuíba. Também funcionava uma fábrica de farinha de mandioca, com o ralo, prensa de parafuso, etc... Tudo isso parecendo também muito antigo, porém funcionando bem.
Havia também, um estábulo, onde se ordenhavam vacas.
Na casa, para uso dos moradores, fabricavam-se velas de cera.
PORTO FLUVIAL
Conta o informante que, passando o rio Pinheiros a uns 150 metros da casa, e sendo perfeitamente navegável, o seu pai possuía 3 canoas, todas elas feitas de um só pau. Usavam essas canoas para levar e trazer mercadorias, não só do centro do bairro de Pinheiros, como também de lugares distantes.
Lembra-se perfeitamente que na barranca do rio havia umas pedras empilhadas (sobrepostas) parecendo ser obra muito antiga. Davam idéia de ser a cabeceira de um trapiche.
MÓVEIS E OBJETOS QUE PERTENCERAM A CASA VELHA DO BUTANTÃ
O Sr. Antonio Vieira de Medeiros possue ainda, em sua atual residência, um banco antigo, de madeira escura, com encosto. Diz ele que é um dos dois bancos que ficavam no alpendre da casa, um ao lado do outro.
Também possue uma velha mesa, de feitura tosca.
Numa capelinha que construiu no quintal de sua residência, existem várias imagens e a velha cruz, orago da casa.
Diz que ainda devem existir em seus guardados, uma ou duas formas antigas de madeira, de fabricar velas.
DOAÇÃO DOS MÓVEIS E OBJETOS
Está o Sr. Antonio Vieira de Medeiros inclinado a doar o velho banco e a mesa para serem colocados na "Casa do Bandeirante", caso haja interesse para isso. Também se comprometeu a doar outros objetos que porventura possa encontrar.
JARDINS
Segundo o informante, havia dois jardins junto a casa: um maior, com árvores de grande porte, entre as quais, paineiras e que ficava na parte da frente, isto é, aquela voltada para o Rio Pinheiros (antigo leito) sendo o seu acesso franqueado por uma porteira ladeada por duas palmeiras imperiais; o outro jardim era menor e ficava à esquerda de quem entrava, sendo um jardim de uso privativo das pessoas da casa e ali somente eram cultivadas flores, trepadeiras e begônias. Lembra-se o informante que também havia um canteiro com plantas medicinais de uso doméstico: bálsamo, malva de remédio, hortelã, camomila, arruda, erva-doce e toda a sorte de ervas usadas na farmacopéia doméstica.
ÁREA DA PROPRIEDADE
Diz o Sr. Antonio de Medeiros que no tempo que ele morou na "Casa Velha do Butantã", a área da propriedade era de 120 alqueires. As culturas principais eram da cana-de-açúcar e a da mandioca. Também se cultivava uvas para a fabricação de vinho, sendo de 8.000 o número de videiras.
FESTA DE SANTA CRUZ
Estando a Fazenda sob invocação da Santa Cruz, havia novenas preparatórias nas noites que antecediam a 3 de maio. Nessa noite além das rezas, procedia-se ao levantamento do mastro, após a novena oficiada por um capelão, começavam as danças, sendo a principal a Dança de Santa Cruz (igual à que até hoje se dança em Carapicuíba Velha). A meia-noite acendiam-se fogos de artifício. Violeiros afamados prestavam seu concurso.
Por ocasião das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo a casa foi restaurada, e recebeu então a denominação de "Casa do Bandeirante", sendo suas congêneres chamadas de "casas bandeiristas". Denominação imprópria porque não há prova alguma que tenha sido propriedade de algum bandeirante. Porém nos anos 50 a mentalidade era outra e a Casa do Butantã foi transformada num local de exaltação à hoje questionável figura do bandeirante. Móveis coloniais requintados e outros objetos de uso quotidiano foram trazidos de Minas Gerais para ajudar a compor a ambientação grandiloqüente desejada, ainda que objetos tão refinados jamais tivessem sido usados na modesta São Paulo colonial. Com o tempo tais excessos foram corrigidos e a casa voltou a ser chamada pelo nome tradicional "Casa do Butantã" ou "Sítio Velho do Butantã". Na segunda metade dos anos 70, a praça onde está situada ganhou um belo projeto paisagístico do professor Plínio de Toledo Piza, que teve o cuidado inclusive de reconstituir o antigo jardim de plantas medicinais.
Atualmente está aberta a visitação de terça a domingo, das 9 às 17 horas, e abriga um espaço museológico com objetos que retratam com a vida colonial paulista. É um livro que conta uma história antiqüíssima.
Quem se dispuser a ler este livro escrito nas grossas e austeras paredes de taipa, vai conhecer uma história onde Iracema e as Mil e Uma Noites se encontram.
Agradecimentos: funcionários da Casa do Butantã
Notas
1 - LEFÈVRE, RENÉE e LEMOS, Carlos A. C. São Paulo: sua arquitetura: colônia e império, pg. 11. Apud LEMOS, Carlos A. C. Casa Paulista: história das moradias anteriores ao ecletismo trazido pelo café. São Paulo: Edusp, 1999, pg. 35.
2 - PACCE, Márua R. A propósito da Casa do Bandeirante. Revista do Arquivo Histórico Municipal, São Paulo, nº CXCIII, jan/dez 1980, pg. 136.
3 - id. pgs. 136-140.
4 - ibid. pgs. 142-146.
Fotos: Jorge Eduardo Rubies
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Jorge Eduardo Rubies