Prédio do Banespa

(Edifício do Banco do Estado)

Rua João Brícola, 24; Rua Boa Vista, 209 a 221

Número de pavimentos: 35 na r. João Brícola; 16 na r. Boa Vista

Arquiteto: Plínio Botelho do Amaral/ Construtora Camargo Mesquita

Ano de conclusão: 1947

Estilo: art decô tardio (moderne)

 

O prédio do Banespa, também conhecido como Edifício do Banco do Estado, é o símbolo maior de uma cidade que aspirou a ser grandiosa. A pedra fundamental do edifício foi colocada em junho de 1939 pelo interventor federal em São Paulo nomeado por Getúlio Vargas, Ademar de Barros. A construção se arrastou por oito anos, interrompida pela Segunda Guerra Mundial, e em 27 de junho de 1947, como governador eleito, o mesmo Ademar inaugurou o edifício em estilio decô tardio que se tornaria o marco inigualável da cidade no pós-guerra.

Colocação da pedra fundamental do edifício pelo interventor federal Ademar de Barros

Com 161,22 metros de altura e 35 andares, o prédio era o maior do mundo fora dos Estados Unidos e o primeiro a superar seu vizinho Martinelli, que durante 18 anos reinara como o maior arranha-céu de São Paulo. Naqueles anos de pós-guerra, a cidade entrava numa era de enorme entusiasmo e progresso. Foi naquela época que começou a migração nordestina em larga escala; também recebeu uma nova leva de imigração japonesa e européia, fugida da destruição da guerra. O prédio do Banespa se tornou como que um símbolo daquela nova era progressista.

Os melhores materiais foram generosamente utilizados no acabamento da torre: mármore de Carrara, tacos de ipê, jacarandá, e sua fachada revestida com pastilhas de porcelana. Seu saguão central tem um pé-direito de 16 metros de altura; as portas de aço de seus cofres-fortes pesam 16 toneladas cada uma. Tudo à altura dos anseios do maior centro econômico da América Latina.

O majestoso edifício é um dos maiores orgulhos dos paulistanos e fica no eixo da Avenida São João, constituindo a mais impressionante perspectiva da cidade. Me atrevo a dizer que se trata talvez de uma das perspectivas urbanas mais espetaculares do mundo - uma das poucas comparáveis, a da Park Avenue em Nova York, tem a vantagem de ser compreendida por uma das avenidas mais ricas e elegantes do mundo, em comparação com a nossa esvaziada e mal cuidada São João; mas por outro lado, a perspectiva da Park Avenue foi desonrada pela construção do monstruoso Prédio Pan Am (atual Met Life Building), bem detrás de seu tradicional ponto focal, o belo New York Central Building (atual Helmsley Building).

Do outro lado do centro velho, no Parque D. Pedro, o prédio do Banespa também domina o mais impressionante skyline (silhueta urbana) de São Paulo. É o segundo prédio mais alto da cidade, à frente do Edifício Itália e só superado pelo Mirante do Vale (Palácio Zarzur e Kogan). O mirante no 35º andar pode ser visitado de segunda a domingo.

Nos anos que se seguiram à II Guerra Mundial, as centenas de milhares de migrantes do Nordeste, da Europa e do Japão que chegavam a São Paulo em busca de uma vida digna eram saudados pela majestosa figura do Edifício do Banco do Estado. Um prédio daquelas dimensões não existia nos seus lugares de origem, e era como que um farol que indicava o novo caminho para as suas vidas, um prenúncio de felicidade e prosperidade. A promessa se realizou para esses imigrantes, que prosperaram e se multiplicaram aos pés do colosso. Uma pena que a promessa não tenha se concretizado para as gerações que se seguiram.

Apêndice 1 - Detalhes construtivos

(As informações a seguir foram integralmente extraídas da edição da Revista Acrópole de dez/47 e descrevem minuciosamente o edifício na época de sua inauguração. Alguns dos ítens descritos podem não corresponder à realidade atual do prédio.)

- Estrutura e fundações

A construção do edifício revelou-se um desafio representado pela natureza argilosa do terreno da região. Optou-se pelo estaqueamento com estacas de concreto moldadas no local, após a remoção das argilas onde seria fundido o fuste das estacas até a profundidade de 14 metros, no nível da Praça Antonio Prado, profundidade essa em que foi realizado o alargamento das bases das estacas, seguindo-se a locação das armaduras e finalmente o lançamento do concreto, devidamente adensado a seguir. As provas de carga nas estacas ficaram a cargo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas - IPT. Foram construídos muros de arrimo para a proteção dos prédios vizinhos, sendo necessário escavar até 4 metros abaixo das fundações do então prédio do Banco Comercial de S. Paulo, com 12 andares, tendo sido instalada uma cortina contínua de estacas pranchas de aço, perfil especial, devidamente engatadas e batidas junto à divisa do terreno em toda a sua extensão. Escoras auxiliares foram implantadas, sendo removidas à medida da implantação dos alicerces nessas zonas.

As fundações do bloco voltado para a Praça Antonio Prado são constituídas por um radier geral de distribuição uniforme sobre a totalidade das estacas, que suporta uma carga de pilares de até 3 mil toneladas. A estrutura de concreto armado do edifício é constituída por uma série de pórticos de 3 vãos, no bloco da Antonio Prado, e normal, do lado da R. Boa Vista. A complexidade dos cálculos estruturais foi tamanha que, a título de exemplo, para a determinação dos momentos provenientes da ação do vento foram necessários 36 sistemas de equações simultâneas. O dimensionamento de todas as peças de estrutura seguiu as Normas Brasileiras NB-1.

- Acabamentos

Tijolos comuns foram utilizados na alvenaria do prédio. Nos pisos, optou-se por granito esmerilhado nas áreas de maior circulação e por mármores ( halls dos elevadores, corredores e andares) nas de menor circulação. O mesmo critério foi utilizado no piso das escadas.  No piso do grande saguão, foram empregados granito polido, granito esmerilhado e bronze. Tacos de ipê revestem o piso dos ambientes de trabalho; nos banheiros e copas, são usadas pastilhas de porcelana; pias e sanitários são de porcelana vitrificada.

O embasamento do edifício foi revestido com granito róseo polido, tanto do lado da Praça Antonio Prado, como do lado da R. Boa Vista. No restante da fachada da praça, foram aplicados 20.000 m² de mosaicos de porcelana da empresa Argilex. Foi o primeiro grande edifício do mundo onde se utilizou este tipo de revestimento na fachada, revestimento que se tornou marca registrada da arquitetura nos anos 50 (sobretudo) e 60. Já o bloco da Rua Boa Vista foi revestido com cimento branco. Internamente, onde não havia necessidade de revestimentos especiais, as paredes foram revestidas de argamassa e areia, ao passo que no grande saguão, em ambas as entradas e na Casa Forte, as paredes são revestidas de mármore. Os forros dos tetos da Diretoria e da Administração são de madeira; as paredes são revestidas de lambris de jacarandá artisticamente trabalhado, enquanto que nos demais ambientes de trabalho são de lambris simples de jacarandá. Em diversos ambientes do prédio há paredes de tijolos de vidro translúcido. Nos ambientes de grande movimento, utilizou-se o material "Acousti-Celotex" para absorção do ruído.

Originalmente estava previsto um gigantesco baixo-relevo de mármore travertino a ser colocado no grande hall, representando o Apóstolo São Paulo e cenas da história da cidade e do banco. Esse baixo-relevo não chegou a ser executado.

Todas as portas internas são de jacarandá e dotadas de ferragens especialmente desenhadas para o edifício. As janelas são guarnecidas com caixilhos guilhotina equipados cada qual com uma única lâmina de vidro que cobrem o vão inteiro. Também foram utilizadas persianas metálicas de marca "Sun-Aire". Os portões da entrada de ambos os blocos são de cobre, trabalhado artisticamente. Nas galerias do grande saguão, as grades artísticas são de bronze e aço inoxidável. Alguns ambientes são separados por paredes feitas com tijolos de vidro.

- Infra-estrutura

Toda a água do prédio é previamente tratada por meio de filtros. O reservatório de acumulação, com capacidade para meio milhão de litros, situa-se no bloco da Rua Boa Vista. De lá, a água é bombeada para 2 reservatórios intermediários, situados no 14º andar do bloco da Boa Vista e no 17º andar do bloco da Antônio Prado, sendo que neste último bloco, existem reservatórios de distribuição no 31º andar e um de pequena capacidade para servir os andares acima. Todo o prédio está equipado com instalações especiais para incêndio, alimentadas por bombas reservatório privativas. O prédio inteiro também está servido de canalizações de gás.

No porão do bloco da Antônio Prado encontra-se uma estação transformadora da Eletropaulo que alimenta os seguintes serviços de eletricidade: luz para iluminação dos ambientes, luz para iluminação das fachadas, luz para fins decorativos, luz de emergência, força para equipamentos mecânicos (elevadores, bombas, exaustores, ar-condicionado), força para as tomadas de corrente e força para a ligação de climatizadores. No que diz respeito à iluminação, a zona de aluguel é dotada de lâmpadas incandescentes comuns, enquanto que a zona do banco é iluminada por lâmpadas fluorescentes; tubos de luz fria são utilizados para efeitos decorativos.

A rede telefônica, servida por canalização especial, consiste em rede de interfones, PABX e alto-falantes para conferências coletivas da Direção e Administração.

O prédio também está dotado de relógios elétricos, alermes de incêndio, alarmes contra roubo nos guichês com dispositivo de fechamento elétrico instantâneo de todas as saídas, proteção das portas da casa-forte com dispostivo radar, proteção microfônica das paredes da casa-forte, serviço de ar-condicionado para a casa-forte, sinalização de chamada para os guichês com rede de alto-falantes, sinalização de chamada de contínuos, por campainhas, rede de pára-raios, fornos incineradores de lixo em cada um dos blocos com bocas coletoras em todos os andares.

O prédio é servido por 13 elevadores, entre os quais 3 de 210 metros por minuto e capacidade para 16 passageiros e 1 de 105 m/minuto para 12 passageiros na zona de aluguel do bloco da Antônio Prado; 2 elevadores para 10 passageiros de 105 m/minuto na zona do banco; elevador privativo da Diretoria para 9 passageiros e velocidade de 75 m/minuto; elevador privativo de pessoal para 6 passageiros e 75 m/minuto; dois monta-livros de comando automático. No bloco da Boa Vista, 2 elevadores para 12 passageiros na zona de aluguel, com velocidade de 135 m/minuto e na zona do Banco, 2 elevadores para 9 passageiros com velocidade de 75 m/minuto, além de um monta-livros de comando coletivo.

O prédio também é servido por esteiras mecânicas para transporte de papéis, ligando todas as seções do andar térreo. Foi também previsto um sistema de transporte pneumático.

A casa-forte é dotada de portas circulares com peso de 16 toneladas cada, e é circundada por um corredor de fiscalização dotado de espelhos para facilitar a vigilância. A zona de cofres de aluguel possui 2.000 cofres de diversos tamanhos. O banco possui uma porta especial diretamente ligada à casa-forte para atender aos clientes que queiram utilizar seus cofres fora do período do expediente

Apêndice 2 - Lista de fornecedores do Edifício do Banco do Estado:

Produto

Fornecedor/ endereço à época

Elevadores

Atlas

Estacas

Franki

Isolante acústico marca Acousti-Celotex

Empresa Concessionária de Produtos Ltda. - R. Líbero Badaró, 346, 7º

Ar-Condicionado das Caixas-Forte

Carrier Engenharia S/A

Fechaduras e Ferragens

Arouca & Cia. - Av. São João, 475 tel. 4-0520

Grades Artísticas e Serralheria

Companhia Brasileira de Construção Fichet e Schwartz-Hautmont - R. Xavier de Toledo, 14, 5º tel. 4-7015 e 4-6989

Guichês, Arandelas, Portas e Sancas em aço inoxidável, lustres e arandelas artísticas

Metal Tupy - Paulo Murin Recado 5-0543 - R. Antonio Mariz, 131

Iluminação fluorescente tipo "Gold Cathode"

Sociedade Lumina Industrial  e Elétrica Liel Ltda. R. Saldanha Marinho, 163 tel. 9-5296

Impermeabilização com produtos Everseal

M. E. Guimarães - Largo do Arouche, 45 tel. 4-8461

Lambris de madeira e móveis

Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo

Pastilhas de porcelana "Argilex" do revestimento das fachadas

Indústria Paulista de Porcelanas Argilex - R. da Consolação, 348 - tel. 48043

Sinalização e intercomunicação, aparelhos de alarme de incêndio, relógios etc.

Ericsson do Brasil Comércio e Indústria S/A - R. Florêncio de Abreu, 157 - 7º tel. 3-3139

Torneira"CRE", jato de pressão automática

 

Agradecimentos: Adriana Pichotano Athaide (Museu Banespa)

Artigo escrito por Jorge Rubies

 

Galeria de imagens

Fotos históricas do Banespa (acervo do Museu Banespa)

Colocação da pedra fundamental

Colocação da pedra fundamental

Versão do Projeto, da Construtora

Camargo e Mesquita

Versão do Projeto, de Plínio

Botelho do Amaral

Versão do Projeto, da Construtora

Camargo e Mesquita

O prédio em fase final

de construção

Olhando para o Parque D.

Pedro, no dia da inauguração

Vista do Martinelli

Final dos anos 40 (?)

Final dos anos 40 (?)

Final dos anos 40 (?)

Início  dos anos 50

Vista do Parque D.

Pedro ca. 1950(?)

Vista do Parque D.

Pedro anos 50(?)

 

Final dos anos 50 (?)

Final dos anos 50 (?)

Anos 60

Julho de 1976

Anos 70

Final dos anos 70

Final dos anos 70

Final dos anos 70(?)

Início dos anos 80

Anos 80

 

Vista do saguão

na época da inauguração

Vista do mezanino

na época  da inauguração

Vista do cofre-forte

na época da inauguração

Vista da Presidência

na época da inauguração

Vista do Salão Nobre

na época da inauguração

Vista do Salão Nobre

na época da inauguração

   

Fotos atuais do Banespa

Créditos: Edmundo e Jorge Eduardo Rubies

   
 
   

Outras páginas sobre o prédio do Banespa: Sampacentro   Sampa.art.br    Fortalsampa