Antiga agência do Banco do Brasil em S. Paulo
(Atual Centro Cultural Banco do Brasil)
Rua Álvares Penteado, nº 112; Rua da Quitanda, nº 18
Número de pavimentos: cinco mais torreão
Ano de conclusão: 1927
Uso atual: atualmente abriga o Centro Cultural Banco do Brasil
Proteção: Z8 200-026/Condephaat

Vista noturna do Centro Cultural Banco do Brasil
O Banco do Brasil é o
maior e mais antigo banco do país. O primeiro Banco do Brasil foi criado por
alvará de d. João VI em 12 de outubro de 1808, ou seja, logo após a chegada da
família real portuguesa ao Brasil, e já em 1820 havia uma filial em São Paulo.
Esse primeiro banco foi liquidado em 1829, e o segundo banco (o atual) só seria
fundado em 1853, tornando-se desde então uma das grandes empresas de economia
mista do país, um patrimônio público nacional da maior importância em nossa
história e que faz parte do quotidiano de milhões de brasileiros. Atualmente, o
Banco do Brasil possui 3.155 agências no Brasil e 17 no exterior.
Desde os primórdios do banco, a agência paulistana ocupou posição de destaque, que naturalmente foi crescendo à medida em que crescia a importância da cidade no cenário nacional. Nos anos 20, São Paulo já era uma das grandes metrópoles da América, e centro industrial do país. A elite cafeeira paulista tinha nas mãos o poder econômico e o poder político da nação. A cidade se expandia e se desenvolvia de forma impressionante, sendo executadas nessa década obras públicas e privadas de grande magnitude. Nessa época, a diretoria da empresa resolve construir nova filial em São Paulo, na esquina das ruas Álvares Penteado e da Quitanda - duas antigas ruas da cidade colonial, que remontam ao século XVI, e que haviam se convertido em parte do distrito financeiro da cidade, posição que até hoje ocupam. O arquiteto comissionado para a obra foi Hipólito Gustavo Pujol Júnior, à frente do Escritório Técnico Pujol Júnior, F. Reimann, T. Carvalho e D. Tassini.
Já tivemos a oportunidade de falar sobre esse grande engenheiro-arquiteto. Foi ele também o autor do Edifício Guinle e do Edifício Rolim, outros marcos da paisagem urbana em São Paulo.
O arquiteto
Gustavo Pujol, nascido em na cidade de Mendes, Rio de Janeiro, em 7 de maio de 1880, era filho de Hipólito Pujol, franco-catalão da cidade de Perpinyà, pedagogo radicado no Rio de Janeiro, e irmão do renomado político Alfredo Pujol. Ingressou na Escola Politécnica em 1898, formando-se engenheiro-arquiteto em 1905.
A Póli foi
fundada em 1894, inspirada no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique. A
década de criação da Escola Politécnica foi de grandes transformações na cidade
de São Paulo. Em 1890, a cidade tinha 60.000 habitantes. Dez anos mais
tarde, em 1900, já contava com 240.000 - crescera 4 vezes. Claramente, a cidade
necessitava de uma escola de engenharia, já que os engenheiros formados na Corte
ou no exterior não mais davam conta da crescente demanda
Na Póli, Pujol destacou-se tanto como aluno extremamente dotado quanto como atuante e popular líder estudantil. Participou da Fundação do Grêmio Politécnico, do qual foi o segundo presidente, fundou a Revista Politécnica, e por iniciativa sua o Grêmio elaborou o Manual de Resistência dos Materiais, o mais completo até então publicado no Brasil. No ano seguinte à formatura (1906), foi nomeado professor substituto da Póli e encarregado do Gabinete de Resistência de Materiais, criado em 1900 e embrião do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Ainda em 1906, Pujol foi enviado à Europa a fim de estudar os mais modernos laboratórios de engenharia da época. A estada na Europa durou um ano, e na volta o Gabinete de Resistência de Materiais foi reorganizado e ampliado, sendo dotado do estado da arte em termos de aparelhos científicos para o estudo da engenharia, e equiparando-se aos seus mais avançados congêneres do mundo. Nova viagem em 1909 levou à aquisição de instrumentos ainda mais modernos e sofisticados.
Na Politécnica Pujol chegou a catedrático das disciplinas Resistência e Estabilidade; escreveu inúmeros artigos para a Revista Politécnica, inclusive de crítica de arquitetura (uma de suas críticas versava sobre a estação de Mairink, projeto de seu professor Victor Dubugras). Paralelamente, foi sócio de empresa imobiliária, em sociedade com o irmão Alfredo, responsável pelo loteamento do bairro Santa Maria, em São Caetano do Sul. Foi sócio também de diversos escritórios de arquitetura, onde desenvolveu seu prolífico trabalho como arquiteto. Além dos já citados Edifícios Guinle e Rolim, eis alguns dos outros projetos de Gustavo Pujol:
Casa de Manobras do Reservatório da Moóca, seu primeiro projeto, de 1907
Galeria de águas pluviais de Jaú
Sede do Fluminense Football Club, no Rio de Janeiro, em estilo Luís XVI, concluída em 1922
Teatro Pedro II em Ribeirão Preto, em estilo Luís XVI, projetado em 1928
Plano Diretor da Cidade de Lambari, 1933
Hospital Beneficência Portuguesa, em estilo moderne (art decô simplificado), projeto de 1944
Caixa d'água da Cidade Universitária da USP
Hospital Universitário da Bahia
Uma mostra do talento de Pujol é uma história quase anedótica, ocorrida durante a Revolução de 32 - ocasião em que recebeu a patente de major, e à frente do Batalhão de Engenharia de Santos, foi responsável pela minagem da Barra de Santos. Assim descreve o episódio seu ex-aluno Amador Cintra do Prado (1):
"O mais interessante é que depois do armistício foi o mesmo engenheiro Pujol convidado pela Marinha ditatorial a desfazer o serviço. Negou-se peremptoriamente. Preso, prontificou-se apenas a dar a localização e a profundiade das minas, numa discussão em mesa-redonda onde demonstrou tal proficiência que lhe deram um banquete a bordo. Depois disso, ele consentiu em dirigir a limpeza. Seguiu preso, porém, para o Rio, onde somente foi solto depois de repetir, explicar e defender o plano de minagem perante vários almirantes, o que ele fez recebendo gerais elogios".
Gustavo Pujol caracterizou-se por combinar um apurado senso estético ao domínio das mais modernas tecnologias de sua época. Foi o pioneiro no uso do concreto armado, que até hoje é o principal material de construção das grandes obras no Brasil. Segundo seu contemporâneo e também ex-politécnico Archimedes de Barros Pimentel "ele pessoalmente era um artista, de modo que atraía todo mundo. Era uma pessoa bem mais velha, que não era prestigiada suficientemente pela sociedade nem pelos clientes. Pujol era muito mais perfeito do que Ramos, conhecia muito mais e era menos ganancioso: no entanto Pujol não ganhava e o Ramos enriquecia." (2)
Faleceu em São Paulo aos 72 anos, em 27 de agosto de 1952.
O edifício
A antiga sede do Banco do Brasil em São Paulo é um dos poucos prédios da cidade que revela influências da Escola de Chicago, evidenciadas pela grande área das janelas emolduradas por pilastras monumentais. Isso foi possibilitado pela estrutura de concreto armado, que conferiu ao edifício um aspecto mais leve, com mais janelas e menos paredes. O estilo predominante no entanto é o Napoleão III. Li não lembro onde que o prédio teria sido inspirado na Casa Rothschild de Londres, porém não consegui obter nenhuma fotografia do prédio inglês para comparação.
O prédio possui cinco andares, arrematados por uma mansarda e por uma cúpula no torreão da esquina. Na esquina também se encontra a entrada principal, encimada por um medalhão com as iniciais BB sobre um busto do deus Mercúrio, o deus do comércio, ornamentados com guirlandas. A composição da fachada é simétrica, desenvolvendo-se em torno do eixo da esquina, sendo que cada fachada é composta por um módulo central ladeado por dois corpos projetados a partir do primeiro andar, apoiados por mísulas. O módulo central possui quatro envasaduras por andar, e os corpos laterais uma. No térreo com pé-direito duplo todas as envasaduras são em arco pleno, com quatro janelas ladeadas por duas portas. O corpo da fachada, com três andares, é composto por janelas retangulares que no módulo central são separadas por três pilastras monumentais. O coroamento do corpo central é em mansarda de telhas de ardósia, com quatro óculos correspondentes às quatro janelas dos pavimentos inferiores.
Internamente, a característica principal é o vão que atravessa todos os andares, iluminado por uma clarabóia no quarto andar - executada, naturalmente, pela Casa Conrado. Originalmente, esta clarabóia ficava no terceiro andar, e separava os andares inferiores, reservado às atividades bancárias, dos superiores, alugados para terceiros.
A ornamentação do prédio é sóbria porém luxuosa, como se poderia esperar. Arandelas, balcões de ferro artisticamente trabalhados com as iniciais BB, mármores, pisos em mosaico veneziano, molduras em gesso, afrescos, guichês em madeira de lei, tudo contribui para tornar o local requintado e sofisticado nos menores detalhes. Todos esses elementos foram feitos sob medida para o prédio do Banco do Brasil. No subsolo, os dois enormes cofres importados da França ainda podem ser admirados.
A inauguração se deu em 10 de outubro de 1927. Porém, com o desenvolvimento avassalador da cidade, o prédio rapidamente se tornou pequeno demais para comportar as atividades do banco. Em 1954 foi inaugurada uma nova sede do Banco do Brasil em São Paulo, o prédio colossal no início da av. São João, bem em frente ao Martinelli.
O prédio antigo continuou de propriedade do Banco do Brasil, mantendo-se intacto e bem preservado. No final dos anos 90 iniciou-se sua conversão para se tornar o Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, após a experiência bem-sucedida no Rio de Janeiro. O projeto foi do arquiteto Luiz Telles, e a reinauguração se deu em 17 de abril de 2001. Todos os elementos originais foram mantidos, e procedeu-se a uma restauração integral do prédio, que passou a abrigar novos espaços para as atividades culturais: diversas áreas para exposições, sendo uma sala no subsolo com 128 m², além dos espaços internos dos cofres com 30 m², 147,5 m² no térreo, 172 m² no 2º andar e 80 m² no terceiro andar; cinema no 1º andar com capacidade para 82 espectadores, sendo 3 portadores de deficiências; auditório no 1º andar com capacidade para 45 pessoas; teatro para 130 pessoas no 3º andar, sendo 4 vagas para portadores de deficiência, e 38 no mezanino; café, bombonière, restaurante, cibercafé e livraria. O prédio possui área construída de 4.183 m².
O sucesso do Centro Cultural pode ser evidenciado por uma experiência pessoal: fui lá num domingo à noite assistir a um filme, imaginando que não haveria ninguém. Cheguei 10 minutos antes, mas a sessão já estava lotada. Apesar da decepção de perder o filme, tive também uma satisfação em constatar essa freqüência de gente jovem naquele dia e horário. Dez anos atrás, seria impossível encontrar alguém no Centro Velho num domingo à noite, com a provável exceção de bandidos e dos deserdados pela sorte dormindo sob as marquises.
Agora, graças a iniciativas como a do Banco do Brasil, do edifício Lutétia, da Caixa Econômica Federal, do Shopping Light, do casarão da família Santos Dumont, do Mercado Municipal, da Casa de d. Yayá ou da Escola de Música Tom Jobim, e outros projetos já implantados ou implantação, a juventude está redescobrindo o Centro, que as gerações anteriores de jovens evitavam.
Talvez ainda haja
esperança no fim do túnel.
Agradecimentos: Maria José; Maria do Socorro (ascensoristas); Josenei (segurança); Rita (recepção); Camila (imprensa).
Notas
1 - "Os engenheiros em 32" Revista Engenharia nº 176, julho de 1957 apud CARAM, 2001, pg. 157
2 - CARAM, 2001, pg. 173
Referências bibliográficas:
CARAM, André Luis Balsante. Pujol Concreto e Arte. São Paulo, edição do Banco do Brasil, 2001
Fotos - créditos: Jorge Eduardo Rubies
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Jorge Eduardo Rubies